quarta-feira, 3 de maio de 2017

CONTRALUZ

Fn

Índice:

Trailer
Edição
Argumento
Roteiro
Locação
Figurantes
Identidades
Teleprompter
Estúdio
Preview
Painel
Premonição
Terceira Via
Captação
Pré-Estreia
Rebatedores
Reprise
Minissérie
Teaser
Penumbra
Quadro a Quadro
Pesk e Pag
Câmera Lenta
Convergência?
Trilha
Plano Aberto
Lente Macro
Plano Americano
Tête-À-Tête
Linha Direta
Lado B
Luz Indireta
Stop Motion
Zoom-In
Diafragma
Som Direto
Grande Angular
Projeção
Ação X Ideias
Sincronia
Clones e Drones
Fogo Amigo
Coadjuvantes
Política Líquida
Provocações
Bastidores
Enquadramento
Fade-In
Fade-Out
Travelling
Pan
Long Shot
Alternativas
Trucagem
Preto e Branco ou Sépia
Diálogos
Play Back
Continuidade
Som Ambiente
Autochrome
Blow Up
Sequência
Chicote
Copião
Pós-Produção

A esperança não é a última que morre, nem é a primeira a ressuscitar depois de um longo e tenebroso inverno. Frases feitas, repetidas através dos séculos, manipuladas por religiosos e políticos, servem apenas para cobrir o fundo do poço com areia movediça. Onde fica a esperança? Sempre haverá aqueles interessados em cavar cada vez mais fundo para descobrir a verdade e empreender a saída, que começa com o solo firme para fincar a escada.

TRAILER. CÂM. segue mulher que caminha rápido por um corredor estreito. De vez em quando olha para trás, como se estivesse sendo perseguida. No final do corredor há uma porta, que a mulher abre. Corte. Contracampo. CÂM. enquadra a mulher, agora de frente, saindo pela porta que ela mesma abriu.
Repetem a cena, mas agora é um homem, ao invés da mulher, que corre no sentido inverso: primeiro abre a porta e surge no corredor com a CÂM. enquadrando seu rosto tenso. Corta, o primeiro diretor grita, por hoje chega.
EDIÇÃO. Na mesa de um bar mal iluminado, o diretor 1 revela ao casal de atores: a cena gravada talvez não seja a primeira, o que importa é seu conteúdo simbólico. Atriz interrompe: a mulher foge, o ator completa: o homem corre para o lugar de onde ela fugiu. O diretor bate suaves palmas: é isso mesmo, o homem está sempre atrás do passado da mulher. Foi o que a cena quis simbolizar, talvez tenha que repeti-la, mas com vocês dois inteiramente nus. Ator: neste caso talvez tenha uma ereção, o passado excita com seus mistérios, tudo bem? Atriz: por mim, podes ter quantas ereções quiseres. Corta, grita o segundo diretor que acabara de entrar em cena.
ARGUMENTO. Set mal iluminado, apenas alguns vultos se movimentam. VOICE OFF: Quero saber se todos entenderam que o importante aqui não é só a história, que pode até nem existir. O que nos interessa de fato é alcançar a verdade através de pequenos detalhes. Primeiro diretor pergunta: um exemplo, pode ser? Segundo diretor: alguma coisa que oriente a nós e aos atores. V.O.: O olhar de falso desprezo que ela lançou na direção do ator quando disse podes ter quantas ereções quiseres, a verdade às vezes está nas pequenas arrogâncias.
ROTEIRO. Duas estagiárias conversam no ponto de ônibus em frente à produtora. A estagiária 1 tem uns 19 anos, é loura, extrovertida; a estagiária 2 é morena, mais ou menos da mesma idade, mas é tímida e tem um sorriso de quem não vai permitir que arranquem dela qualquer opinião, por mais inocente que seja, mas é apenas um sorriso. Estagiária 1: ouvi umas coisas… você não vai acreditar. Posso te contar , mas só se você jurar que não conta a mais ninguém. A estagiária 2 ia concordar, mas nesse momento o ônibus dobrou a esquina e parou no ponto.
LOCAÇÃO. Uma casa simples, no alto de uma rua deserta. Chove desde cedo, às nove horas parece que ainda não amanheceu. Qual o segredo que você queria me contar?, pergunta a estagiária morena. A estagiária 1 responde com outra pergunta: você não percebeu que tem alguma coisa errada? Muita especulação e pouca ação? A morena esboça aquele sorriso enigmático e disfarça: Sueli, só falta você me convencer que tudo isso aqui é fachada e que nós somos cobaias de uma trama de espionagem internacional… Quem sabe, responde a amiga. Outro dia aquele diretor baixinho, meio careca, deixou escapar uma frase estranha, tipo “ficção, quanto mais difícil de entender melhor para todos nós”. Fica esperta, Mara.
FIGURANTES. Distribuíram sanduíche e suco para quem estava na fila, que por sinal dobrava a quadra. Um assistente de câmera filmou o protesto por conta própria. A maioria dos estudantes que pretendiam se inscrever para uma vaga de figurante ensaiou o coro “Não tem arrego, melhora a merenda ou você não tem sossego”. O diretor 1 foi ver que bagunça era aquela, ao saber do suco e sanduíche, comentou com o diretor 2: Kléber, ouvi dizer que o orçamento tá estourado, e ainda não tem nada definido, pode? O diretor 2 fez um sinal de bico calado e respondeu: tem boato pra todos os gostos, Valentino. Já me disseram que a verba tá estourando, mas é porque não para de entrar captação. A TV tava aí fora gravando, entrevistando todo mundo, isso não é nada bom pra gente, fica de olho no jornal da noite.
IDENTIDADES. O terceiro diretor, conhecido pelo nome artístico de Carlos Ortega, mal abriu a boca na reunião e logo foi identificado como a voz em off que se referiu ao olhar de falso desprezo da atriz. Os diretores Kléber e Valentino, a partir daquele momento, passaram a assumir uma posição subalterna em relação a Ortega e seus assistentes, não só por ser ele a V.O. mas também pela sua postura na reunião, despachando com os assistentes e distribuindo tarefas a todos, sem cerimônia. Ordenou, por exemplo, que a cena do ator perseguindo a atriz, com os dois inteiramente nus, fosse agora gravada no pátio, diante da fila dos candidatos a figurantes. Não haveria mais porta nem corredor, apenas os dois atores, os candidatos e o escândalo, era isso que Ortega desejava captar, o escândalo e a reação de cada um, vocês entenderam?, disse ele.
TELEPROMPTER. Meus amigos e colaboradores, neste primeiro contato, quero desfazer alguns enganos. Muitos estão desconfiando de nossas intenções, dizem que nosso propósito não é o que revelamos, pensam que visamos exclusivamente o lucro, chegam ao absurdo de mencionar verbas fora da nossa realidade. Tudo isso, creio eu, para semear a discórdia entre nós. Mas se há os que nos superestimam, também há aqueles que nos subestimam. São esses últimos que nos acusam de maus pagadores, chamam-nos de caloteiros. Nós, que não devemos um centavo a quem quer que seja, vamos atrás desses caluniadores, alguns deles inclusive já condenados pela Justiça como milicianos, que são essas quadrilhas que dominaram nossos bairros pobres e agora avançam sobre as chamadas regiões nobres da cidade. Tem gente grande por trás de tudo isso, e nós… Nesse momento, Carlos Ortega, mais conhecido como V.O., entra no estúdio e grita: desliga essa merda, quem mandou mexer no TP, seus viados, ainda mais com esse discurso sem vergonha.
ESTÚDIO. Depois de um dia estafante, quando teve que conseguir de graça fraques e cartolas, objetos de decoração, comida de plástico, essas coisas que nunca estão no mesmo lugar, Júlia, a assistente da assistente de produção, sentou pra descansar um pouco no velho sofá que esqueceram atrás do fundo infinito. Estava tão cansada que chegou a cochilar. Acordou sem saber se as vozes que escutava eram de um sonho ou se havia alguém conversando sem perceber que ela estava ali atrás. O que Júlia ouviu foi a melhor parte do seu dia estafante: Mara, a estagiária morena, perguntava a Valentino: eu tenho um roteiro, não é bem roteiro, é tipo um conto, você acha que se for aprovado podemos produzir aqui na America Pictures? Valentino pensou um pouco e, como era de se esperar, respondeu: depende da história, conta aí por alto. Mara começou explicando que a história em parte era verdadeira, sobre uma garota de programa, amiga de Su. Quem é Su, quis saber Valentino. A estagiária respondeu que Su era Sueli, sua amiga, a estagiária loura. Valentino sorriu e disse: quer dizer que eu estou aqui ouvindo uma história contada pela estagiária morena, sobre a amiga da estagiária loura, chamada Su, logo eu, o primeiro diretor? Quer que eu pare?, Mara perguntou. Não, não… desembucha logo esse roteiro, Valentino respondeu, acentuando a palavra roteiro. Mara: tá bom, essa amiga da Su, como eu te falei, era garota de programa, um dia, ou uma noite, é melhor uma noite, ela vai pro quarto com um cliente, depois de tudo bem combinado, o cara tira a roupa e Su leva o maior susto com o tamanho do negócio do cara, sei lá se o cara era branco ou preto. Valentino começa a rir cada vez mais alto e Mara adverte: você tá rindo porque não viu o tamanho do troço, Su falou que era descomunal, Su não, a amiga da Su, nossa… que confusão, quer que eu pare, diretor? Valentino: não, não… continua. Mara: então, a garota de programa desiste do programa por motivos técnicos. Valentino: motivos técnicos? E começa a rir novamente, depois pede desculpas e promete não interferir mais até o fim. Mara continua: apavorada, a garota saiu do quarto do motel, era um motel de quinta, e ficou no corredor olhando “aquilo” sem acreditar no que via, o cara não se conforma, diz que pagou e exige que ela cumpra o prometido, você sabe, né? Então, ficou aquele clima, o cara exigindo o serviço e a garota alegando impossibilidade por justa causa. Valentino não aguentou e disse: o programa tava virando uma questão trabalhista, ia acabar no TST. Você não tá levando o roteiro a sério, Valentino, disse a estagiária morena, mas é baseado em fatos reais. Valentino: posso até imaginar que junta gente na porta do quarto pra examinar o fenômeno, Mara, você acha que alguém em sã consciência vai filmar um roteiro desses? Foi nessa hora que Júlia saiu detrás do fundo infinito e, para surpresa geral, disse: não concordo, diretor, a história é boa, possui uma temática feminista. Parabéns, Mara, vamos pensar no final, talvez o negão tenha seus direitos. O diretor Valentino interrompe: péra aí, Ju, o cara da história não era necessariamente negro, que racismo é esse? Júlia se defende: não era negão mas podia ser, geralmente é, depois não é racismo porra nenhuma, pode ser um elogio.
PREVIEW. Primeiro desceram a borracha nos candidatos a figurantes, não em todos, mais naqueles que pediam comida aos berros, empurravam uns aos outros, ameaçavam invadir a sede. A coisa ficou tensa e os diretores resolveram que a pasmaceira era o motivo. Não acontece nada de verdade nessa merda, disse o diretor Kléber, disposto a pedir demissão ao V.O. ou a qualquer outro que mandasse mais do que ele e Valentino. Não demorou muito para que Kléber e Valentino se arrependessem do momento em que reclamaram da lentidão dos trabalhos. O diretor 3, mais conhecido como V.O. ou Carlos Ortega, convocou uma reunião de emergência, quando o candidato deveria ser finalmente apresentado a todos da equipe. Pediu sigilo, avisou que seria uma surpresa, mas era preciso esperar mais um pouco. Júlia, recém promovida a primeira assistente de produção, quis saber se V.O. não poderia ao menos dizer o nome do candidato, ou dar alguma pista. Ortega respondeu com um: não seja ansiosa, menina, nem eu mesmo sei quem é.
PAINEL. Já que era preciso esperar, Júlia aproveitou o fraco movimento na produtora para se aproximar de Sueli, a estagiária loura, e, depois de umas conversinhas bestas, perguntou sobre o desfecho da discordância entre a garota de programa e o, digamos, superdotado, que ela, Ju, achava que era um negão, mas podia não ser, não que isso tivesse importância. Sueli reagiu com o tradicional: como é que você sabe disso? Julia contou sobre o roteiro de Mara, Su ficou desapontada, é claro, porque não estava sabendo de roteiro algum, mas confirmou em poucas palavras tudo o que a estagiária morena contara, terminando com a cena chocante, a garota de programa no corredor do motelzinho vagabundo e o cara nu dentro do quarto, a garota pega a chave e tranca a porta por fora, o sujeito fica lá, gritando que não é bicho pra ser tratado daquela maneira, que a garota tinha que cumprir a sua parte, que ele pagara e queria, tinha direito, etc… Júlia achou o final ótimo para um curta, Su deixou escapar, você devia ver o tamanho do troço, amiga. A primeira assistente de produção prometeu a si mesma que guardaria aquele segredo.
Valentino precisava ir pra casa, mas estava dividido, não só porque a qualquer momento Ortega iria convocar todo mundo para a apresentação do candidato, mas também porque viu Júlia e Su conversando, talvez sobre o inacreditável roteiro, pode ser uma boa hora pra me aproximar das duas, pensou.
A primeira pesquisa chegou antes do candidato. Não trouxe grandes novidades: o povo continua querendo mudanças, parece que não acaba nunca, muda, muda de novo, volta à estaca zero e continua querendo mudanças, disse Jarbas, o coordenador de marketing, em conversa com Janaína, a diretora financeira, que acumulava a função de gerente de planejamento. Quando todos querem a mesma coisa, o trabalho pra se diferenciar é, no mínimo, dobrado, disse ela.
Pouca gente sabia, mas a America Pictures possuía duas estruturas: uma visível, no andar térreo e em três outros andares superiores, de fácil acesso a todos; outra, invisível para a grande maioria, no subsolo, com salas para reunião, miniauditório, centros de pesquisa, laboratórios, áreas para repouso e meditação, solarium com luz amarela artificial, cofre sem chave, acionado virtualmente, além de um túnel iluminado e refrigerado, cujo destino era um mistério, mantido em completo sigilo, até mesmo para os mais graduados. Foi neste subsolo que Janaína leu no painel eletrônico as primeiras mensagens do candidato ou da coligação, apresentada em letras vermelhas cintilantes, talvez como temas para discussão. A primeira mensagem dizia:NA POLÍTICA, QUAL O PESO DA VERDADE, UMA VEZ QUE A IMENSA MAIORIA DOS ELEITORES JÁ DECIDIU QUE TUDO QUE VOCÊ FALA É MENTIRA, ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO?
Jana não se deu ao trabalho de responder antes de ler a segunda mensagem: NÃO HÁ SALVAÇÃO PARA UMA SOCIEDADE EM QUE TODOS SÃO LEVADOS A PENSAR E AGIR EXCLUSIVAMENTE SEGUNDO SEUS PRÓPRIOS INTERESSES PESSOAIS.
Janaína não disse nada, apenas pensou: interessante.
PREMONIÇÃO. Tive um sonho horrível essa noite, tétrico, disse a atriz Stephanie Lammar ao jovem escravo branco Iago, contratado para acompanhá-la e obrigado a satisfazer todas as vontades da artista dos palcos e das telas. Iago nada respondeu, não era do seu feitio concordar ou discordar sem que lhe dessem permissão explícita, mantinha a sua altivez, apesar da evidente submissão. O sonho, disse Stephanie, começava com uma estranha calmaria em alto mar, depois alguém avisou pelo rádio que um tsunâmi estava a caminho, Iago você acha que esse tsunami pode ser uma metáfora sobre a situação que enfrentamos hoje? Não me olhe com essa cara, vamos para o meu camarim. Impossível saber se a atriz teve mesmo este sonho ou se estava se exibindo para o ator Rogério Matiolli, que conversava com o diretor Kléber ali perto. De repente, arremessaram um abacate do segundo ou do terceiro andar do prédio da America Pictures. Aquela coisa verde acertou em cheio o ombro do blazer creme de Rogério, o estrago foi grande e obrigou o ator a passar o resto do dia com a mão direita sobre o ombro esquerdo, para disfarçar mal e porcamente a mancha do abacate. Isso até que não foi nada, pior foi ter que aturar a atriz sorrir e dizer, Roger, a cor do seu paletó com a fruta triturada lembra um delicioso creme de abacate. Nojenta, resmungou o senhor Matiolli.
TERCEIRA VIA. Saudades do tempo em que era possível identificar a posição política de alguém com um simples bate-papo, disse Ortega ao ator Matiolli, que completou, depois que a montanha da corrupção desabou sobre a política, todo mundo tem o mesmo discurso e se acha dono da verdade. Júlia entrou na conversa, por falar em verdade, quem é que garante que não tem lá no fundo uma saída de emergência? Que saída de emergência é essa, Ju?, quis saber Ortega. Júlia respondeu: vocês sabem, todos nós sentimos uma vontade lá no fundo de aparecer uma solução inesperada, um milagre, vamos dizer assim. Uma intervenção militar, por exemplo, Júlia?, perguntou Matiolli. Júlia disse: pra muitos eu sei que é isso, mas não pra mim. Penso mais na Justiça com superpoderes. Vai ser ditadura de qualquer jeito, concluiu Ortega.
Júlia saiu da conversa com a certeza de que o fundo do poço ainda estava longe. Antes de ir pra casa encontrou Varela, seu chefe, diretor de produção. O problema é que todo mundo se acha no direito e na obrigação de resolver os problemas do mundo, disse Júlia. Varela não entendeu nada, é claro. Achou que a frase significava um “tudo acabado entre nós”, não deu um pio.
CAPTAÇÃO. A equipe saiu de manhã, lá pelas dez, dez e meia. Não tinha uma pauta bem definida, Varela listou alguns bairros onde haveria confronto, segundo informantes dos dois lados. Era pra Júlia ter ido, mas como não apareceu na America pela manhã, escalaram Mara, a estagiária morena, em seu lugar. Levaram câmeras, tripé, caixa de lentes, gravador de som direto, essas coisas que não podem faltar. Além de Mara, do cinegrafista, do operador de áudio, assistente de câmera e do motorista, havia também uma dupla de figurantes, escolhidos aleatoriamente na interminável fila dos que procuravam alguma vaga, na porta da America Pictures. No início parecia um dia normal: lojas abertas, vendedores nas calçadas, o povo dos escritórios entrando e saindo dos edifícios, carros, ônibus, gente gritando “pega ladrão!” Enfim, se alguém perguntasse, Mara poderia dizer que até aquele momento era uma sexta-feira como todas as outras, não havia o que filmar, ninguém interessante para entrevistar… Isso, até que a van parou no sinal e todos sentiram as batidas na lataria e nos vidros do veículo, depois começaram a sacudir, cada vez com mais força, alguns encapuçados pararam na frente como uma barreira, de modo que era impossível arrancar sem passar por cima dos black-blocs. Mara gritou: tão querendo virar a van, acelera, Samuel. O cinegrafista teve a “brilhante” ideia de gravar os vândalos em ação e isso enfureceu ainda mais a turba, quebraram um dos vidros da lateral da van e estavam quase virando o veículo quando todos ouviram um tiro, depois outro e mais outro. Os vândalos fugiram e toda a equipe desceu pra ver o tamanho da encrenca, no carro e no engarrafamento, a essa altura descomunal. Samuel, o motorista, era o mais revoltado de todos, considerava a van propriedade sua e não um simples instrumento de trabalho. Um mascarado retardatário gritou, Henrique! E um dos garotos figurantes achou que era com ele, e era mesmo. O mascarado gritou novamente, Henrique, seu filho da puta, mudou pro lado dos tiras? Esses babacas pensam que somos tiras, reclamou Olavo, o cinegrafista. Henrique respondeu: liga não, tio, todo mundo que não está do lado deles está contra eles. Mara riu da cara de Olavo ao ouvir o garoto chamá-lo de tio.
PRÉ-ESTREIA. Mais um dia, dois ou três, e nada. A coisa tava empacada, parece que o candidato escolhido em convenção não aceitou as condições, não gostou da equipe, achou que a verba não dava nem pra saída, não teria a mínima chance, essas coisas de político que pretende se valorizar, se fazer de difícil, sempre pra alcançar mais vantagens. Os nervos da equipe na America Pictures chegaram ao limite. Por ordem do V. O. Ortega, suspenderam as contratações, fecharam os portões e começaram a trabalhar na produção de um programa piloto, com um candidato que Ortega chamou de Mr. X.
Eu??? Aqui ó!, disse Roger Matiolli em resposta à sugestão de encarnar o político no projeto piloto. Primeiro alegou que não teria talento para o papel, depois viu que a frase pegou mal e corrigiu: nessa altura do campeonato não quero me identificar com político nem de brincadeira.
Ortega, Valentino e Kléber sentaram pra discutir uma solução com Júlia, Varela e Janaína. A primeira urgência era descobrir o tal candidato fake, a segunda, definir um roteiro, alinhar temas, formatar o programa e por aí vai. Acontece que Ortega era centralizador, gostava de mandar em tudo e em todos, achava que nada escapava ao controle que exercia com mão de ferro. A equipe de criação, por exemplo, se reportava apenas a ele, que aprovava ou recusava textos, layouts, cenários, jingles, quadros, etc. Se eu conheço Ortega e Janaína, não demora muito e os dois vão bater de frente, pensou Júlia, deduzindo a sempre presente equação de olhares, gestos e contrações musculares.
Janaína: pra mim, o programa não precisa começar com a escolha do candidato fake, acho que é mais importante definir a linha. Ortega: se o programa é piloto, com certeza nunca irá ao ar, é claro que precisamos de um candidato fake pra início de conversa. Júlia: Tá certo, mas vamos dizer que acabamos de escolher o tal candidato piloto, ele vai dizer o quê? Ortega: não é candidato piloto, é candidato fake, piloto é o programa. Janaína: não fode. Ortega: o quê? Janaína: já vai começar com essa história de se prender a palavras, não tem sentido… Valentino: calma, gente. Júlia: conheço um cara, é figurante na TV, mas tem uma bela voz de barítono. Janaína: Pronto, resolvido, se esse cara servir, vai falar o quê, senhor Ortega? Ortega dá um murro na mesa: vai falar qualquer bosta, Jana, você ainda não entendeu que é só um piloto? Pi Lo To, vou pedir à criação pra fazer um texto qualquer, enquanto isso, Júlia e Varela vão atrás desse cara, o Mr X, entendido? Kléber: nós fazemos o quê, V.O.? Ortega: vocês? vocês vão…
REBATEDORES. Profissional de criação nenhum no mundo gosta de trabalhar no escuro, sem briefing. E naquele momento era só o que Carlos Ortega podia oferecer: nada. Quando Júlia e Varela chegaram com Mr X, não havia sequer um texto básico, alguma coisa que o candidato a candidato fake pudesse ler diante das câmeras para mostrar sua voz, sua presença e segurança, contudo, para isso até uma reportagem de revista semanal servia.
Mr X: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai anunciaram na quinta feira que a Venezuela está suspensa do Mercosul por ter desrespeitado o Protocolo de Adesão que exige o zelo aos Direitos Humanos, algo impensável para Nicolás Maduro. A ministra das Relações Exteriores Délcy Rodrígues teima que seu país não sairá do bloco por ele presidido. (palmas, gritos de viva, assobios, etc.)
Diante da aclamação, Carlos Ortega ligou para o mandachuva da coligação de partidos avisando que ia mandar um whatsapp com o vídeo de um candidato fake, mas que era apenas referência, alguém que a turma da America Pictures acreditava que seria um bom modelo, só isso. O mandachuva parece que não disse grandes coisas como resposta ou, se disse, Ortega guardou para si. Júlia e Varela contaram que Mr X aceitou muito bem a missão e que tinha sido orientado a não divulgar seu nome verdadeiro na America Pictures. Júlia: por incrível que pareça, Mr. X lembra-se de ter assinado a ficha de filiação a um dos partidos da coligação “Novas Ideias, Novos Rumos”, embora tenha sido em outras circunstâncias, no entender de muitos, todos os velhos partidos estavam mortos e enterrados, só sobraram as siglas. Varela concluiu: por isso mesmo temos que correr com isso.
REPRISE. Quando tudo parecia caminhar para a solução dos problemas urgentes na America Pictures, eis que a recepcionista chama Sueli pelo sistema de som interno. Ela vai, na maior inocência. Vânia, a jovem recepcionista, uma linda mulata sempre sorridente, aponta para o hall de entrada e diz: este senhor está querendo falar com você, Su. Era ele, claro, em pessoa. Su tem que pensar rápido, sabe que não adianta fugir, nem há portas a trancar, vai ter que dialogar com o superdotado, isso se ele ainda aceitar algum tipo de acordo. Felizmente, a America Pictures não era um motelzinho de quinta e se o cara, que ela nem sabia o nome, ameaçasse fazer um escândalo, todos ficariam a favor de Su, mesmo que não tivesse razão na disputa. O máximo que poderia acontecer seria a demissão, ou melhor, a dispensa do estágio, mas estágios são estágios… Resolveu convidar o cara para um cafezinho e depois para uma reunião entre pessoas civilizadas na padaria da esquina. O rapaz, que era na verdade um negro de nome Ramiro, aceitou o convite e quando saíram do estacionamento da America disse: fique tranquila, não vou agarrar a senhorita aqui no meio da rua, nem em nenhum outro lugar, Su. Ela gostou do que ouviu, um cliente negro, educado, com sotaque de haitiano, Su nunca teve preconceitos, ele a chama de senhorita, coisa rara, e está disposto a negociar. Melhor só se ninguém tivesse visto Sueli sair da produtora acompanhada de Ramiro, mas isso era difícil, quase impossível.
Su ameaçou abrir a boca para ensaiar um pedido de desculpas por ter trancado o cara no quarto do motel, mas quem falou primeiro foi Ramiro: conheço você faz tempo, Su, achou mesmo que eu era um cliente qualquer? Agora, o que você fez não foi legal, isso não foi mesmo, concorda? Sueli: concordo, claro, tava até a fim de pedir desculpas. Ramiro diz que não precisa, que aquela cena do motel foi ridícula, só isso. O que Ramiro quer saber é se ela acha normal sair por aí atrás de clientes, mesmo que seja pra pagar a faculdade, o aluguel, mandar dinheiro pra mãe. Sueli: como é que você sabe de tudo isso, Ramiro? que brincadeira é essa? Ramiro diz: brincadeira nenhuma, me fala uma coisa, você tem certeza que o problema ali não foi racismo? Sueli: ah, tô entendendo, pra provar que não sou racista vou ter que me condenar talvez à morte por hemorragia? Ramiro: não seja infantil, Su, acha que eu seria capaz de te fazer mal? pensa que eu não conheço minhas limitações e o quanto me dói reconhecer isso?
MINISSÉRIE. A coligação Novas Ideias, Novos Rumos não demorou para responder ao whatsapp enviado por Carlos Ortega com o candidato fake lendo aquele texto idiota. O mandachuva foi curto e grosso: Carlos, faça um novo vídeo com esse Mr X, sua aprovação aqui foi surpreendente, a minha sugestão é que vocês montem uma entrevista informal, pergunte como ele se vê e como acha que os outros o veem. Ortega obedeceu, é claro, não sem antes pedir à produção que desse um trato no visual de Mr. X e no cenário onde iriam gravar, sugeriu um grafismo com as cores da coligação de partidos e uma foto ao fundo com a multidão dos últimos protestos. Janaína disse: vamos tomar conta do que não é nosso, Ortega?, esses protestos não têm nada a ver com a gente. Ortega respondeu de novo com aquela história, é só um teste, Jana, não perturba.
Pediram a Janaína que ela participasse de uma reunião no comitê da campanha. Ela foi, achando que tinha a ver com o cenário, a roupa de Mr. X, orientação para o texto a ser gravado, esses detalhes. Foi recebida por um tal de Dr. Ângelo, um cara magro, olhos vivos, que parecia sorrir enquanto falava. Não se apresentou, não disse que cargo ocupava, Janaína também não perguntou. Em resumo, a conversa não tinha nada a ver com Mr. X, com o texto a ser gravado nem com o cenário. Dr. Ângelo disse: esqueça a campanha, o candidato, esqueça até mesmo as eleições, o que vamos fazer é plantar uma semente, tenho certeza que você sabe o que é planejamento estratégico, mas agora vamos fazer um planejamento estratégico dinâmico, não se preocupe que aos poucos eu vou te explicar tudo direitinho, só peço que não conte para ninguém essa nossa reunião, invente qualquer coisa e não se esqueça de mandar aquele idiota do Carlos Ortega à merda.
Janaína pensou: será que esse maluco manda em tudo por aqui? Mandava. Além disso, Dr. Ângelo sabia em detalhes o que se passava na America Pictures, do drama da estagiária e seu negão apaixonado aos diretores Valentino e Kléber, que faz tempo não dirigiam comerciais, nem longas ou curtas, muito menos programas políticos, sem esquecer das discretas cantadas que alguns dedicavam a ela, Janaína, mas isso não chega a te incomodar, não é, Jana?, Dr. Ângelo perguntou já sabendo a resposta.
Antes de dar por encerrada nossa primeira reunião, queria levantar um tema pra você ir pensando e conversando com Mr. X e as cabeças pensantes da America, disse dr. Ângelo a uma Janaína bem mais desnorteada do que esperava ficar no início da reunião. Dr. Ângelo: pense se há solução dentro da lei para estancar o mar de lama que inundou o país; pense também no que é preciso começar a fazer para impedir que as pessoas, principalmente os mais jovens, usem esses maus exemplos como justificativa para as ilicitudes do dia a dia. Não há nada mais degradante para um país do que pisar na esperança dos jovens, Janaína disse e Dr. Ângelo gostou.
TEASER. Muito ligado à direção de comerciais, Valentino propõe lançar uma campanha teaser na TV, jornais, outdoor, rádios: colamos cartazes pela cidade inteira, se der certo avançamos para a mídia nacional. Dizendo o quê?, perguntou a atriz Stephanie Lammar. Quem tem medo da verdade?, respondeu Valentino. Júlia pegou o bonde andando e deu sua opinião: depende da verdade, Valentino, do jeito que as coisas estão na política, por exemplo, todos têm medo de alguma verdade que pode aparecer de repente. Valentino voltou a dizer que era uma campanha teaser, que deve chamar a atenção das pessoas e depois terá continuidade. Mara, a estagiária morena, caminhava com Olavo, o cinegrafista, os dois ouviram o que disse Valentino. Olavo resolveu sugerir que ao lado do texto colocassem a silhueta de Mr. X, sem qualquer identificação. A maioria gostou da ideia, Valentino ficou em dúvida, achou melhor conversar com Ortega e ver o que ele dizia. “Quem tem medo da verdade?”, muita gente vai vestir a carapuça, talvez o próprio Mr. X, disse Júlia. Stephanie aproveita a deixa e pergunta baixinho a Júlia: será que é verdade que vão escolher esse candidato fake, o tal de Mr. X, entre as pessoas do povo, sem nenhum critério? Ju responde: ouvi dizer que sim, vai ser ele mesmo, essa é a nossa realidade, parece que está difícil encontrar alguém que não tenha o rabo preso entre os experientes políticos profissionais. Stephanie: você não acha que em pouco tempo vão engolir esse pobre coitado? Júlia: ou será que ele aprende rapidinho os vícios e a malandragem dos políticos veteranos?
PENUMBRA. Desde que Mara inventou a história do roteiro para o curta “O Superdotado e a Garota de Programa”, Sueli andava meio arredia. Eram boas amigas, mas levou um tempo até que Su engolisse a história de que Mara não disse nada que vinculasse diretamente Sueli como vítima do assédio. Mara argumentou que muitas pessoas são fofoqueiras e mesquinhas, alguém divulgou que ela e o rapaz negro saíram juntos e a partir daí todos concluíram que Sueli era a tal garota de programa, vítima do superdotado. Mas afinal o que aconteceu entre vocês?, Mara perguntou. Sueli respondeu que não aconteceu nada naquela tarde, Ramiro era um rapaz educado e respeitador, ganhou a confiança de Sueli e por isso ela concordou em encontrar novamente com ele uma semana depois. Su aceita o convite para conhecer a casa de Ramiro. Conversam sobre o momento atual, as manifestações, os confrontos com a polícia. Falam sobre a America Pictures e o candidato fake, só não dizem uma palavra sobre o que havia acontecido no motel. Parecia que o incidente estava definitivamente esquecido e que Ramiro e Sueli eram agora bons amigos. Mara diz que fica contente com isso, afinal era o que tinha que acontecer. Sueli responde: espera que tem mais, não foi só isso. Já era tarde e depois de algumas taças de vinho e muitas juras e promessas, acabei aceitando passar a noite no quarto de Ramiro, enquanto ele ia dormir no sofá da sala. Não pense que fui ingênua, amiga, era uma aposta e eu dormi só de calcinha, sem trancar a porta do quarto. Mara interrompe: ai, meu Deus… Tem certeza que ainda está viva? Sueli sorri e diz: escuta só, acordei de madrugada com Ramiro me abraçando, senti aquilo que você sabe o que é encostando em mim, enorme e se mexendo, pensei em gritar, mas Ramiro me deu um beijo na boca, um daqueles beijos sem fim, de perder o fôlego. Recobrei a consciência e percebi que já estava inteiramente nua e com Ramiro prestes a me penetrar. Mara interrompe: nossa, que loucura, amiga... o que você fez pra se livrar do perigo mortal? Sueli: fazer, não fiz nada, apenas pedi, implorei: pelo amor de Deus, Ramiro, goza na portinha, se controla, menino, ele obedeceu, não parava de me beijar e dizer que me amava mais que tudo na vida, juro que nunca vi uma ejaculação daquelas, parece que ele não gozava há muito tempo, transar eu sei que nunca transou depois de homem feito. E agora?, disse Mara, um dia ele não vai aguentar, você quer viver nessa corda bamba o resto dos seus dias?
QUADRO A QUADRO. A fila dos candidatos a figurantes na America Pictures foi aos poucos ganhando contornos políticos. Começaram a aparecer bandeiras com a letra “A” dos anarquistas, mais tarde, em contraposição, surgiram bandeiras negras sem nenhum símbolo, alguém tentou hastear uma bandeira do Brasil rasgada, disseram que para representar o estado de penúria em que vivemos. Havia discursos e palavras de ordem provocativas, cenas de pugilato com a participação de mascarados, que ninguém sabe de onde vinham, bombas caseiras, carros de som estacionados na porta convocando para uma greve geral. Pra resumir, a confusão era completa e o ambiente um barril de pólvora, semelhante ao que se prepara no país.
Todos sabiam que o clima entre Janaína e Carlos Ortega, que nunca foi pacífico, estava ficando cada vez mais tenso, tenso e mudo, disse Kléber a Varela. No fundo, Ortega achava que poderia assumir o controle da campanha se fizesse um bom trabalho com Mr. X, Janaína percebeu esta sede de poder e se aproximou do candidato a candidato para neutralizar Ortega. Jana era uma mulher atraente em muitos sentidos, mas não gostava de usar seu charme e dotes físicos para levar qualquer tipo de vantagem, dizia que as consequências em geral inviabilizam os avanços alcançados. O problema é que Carlos Ortega nunca deixou de admirar além dos limites os tais dotes físicos de Janaína, isso no entender de Kléber, Valentino, Olavo, Júlia, Varela, Roger Matiolli... e mais recentemente Mr. X.
Talvez o que ninguém contasse é que Mr. X não estava disposto a ser um simples repetidor das ideias do partido ou da coligação. Uma coisa era ler um texto idiota no teleprompter, como foi o caso daquela matéria sobre a expulsão da Venezuela do Mercosul, outra coisa bem diferente seria uma definição em programas políticos ou nas inserções. Aí ele, Mr. X, ia dizer o que pensa a respeito de muitas coisas nesse país.
Dr. Ângelo e Janaína começaram a conversar online, mas fora do ambiente da America Pictures, considerado vulnerável a invasões de hackers e crackers. A iniciativa foi de Dr. Ângelo, que tomou todo cuidado necessário para estabelecer um diálogo em pé de igualdade, queria deixar Janaína à vontade para criticar, apresentar suas ideias, enfim, dizer o que pensava, Jana, que de boba não tem nada, agradeceu a consideração de Dr. Ângelo enquanto pensava: tá na cara que ele está querendo colocar um pé aqui na America, desde que não pise no meu...vamos ver onde isso vai nos levar.
PESK e PAG. Enfiaram um bilhete na bolsa de Sueli: “Não se iludam, esse Mr. X é homem de confiança do homem forte do partido”. Sueli mostrou o bilhete a Mara, que achou melhor não sair falando pra todo mundo. Primeiro, porque podia ser uma brincadeira de mau gosto; segundo, porque podia não ser. Guardar em segredo também não era um bom negócio, escolheram Janaína pra dividir a informação. Janaína lembrou de Dr. Ângelo, mas não disse nada às duas estagiárias, achou mellhor perguntar como e por quem Mr. X foi descoberto. Foi Júlia, disse Mara, ela foi com Varela atrás desse Mr. X, dá pra perguntar quem indicou, como é que ela conheceu o cara, essas coisas.
O trio – Janaína, Sueli e Mara – foi atrás de Mr. X, com a intenção explícita de não deixar nada claro. Mr. X estava em reunião com Ortega, Valentino e Jarbas, o marqueteiro da campanha. Somos três contra três, Mara pensou, mas sem preconceito de gênero. Ficaram por ali, na sala de reuniões, ouvindo o candidato a candidato: todas as pessoas estão pensando do mesmo jeito, primeiro acham que se a corrupção acabar os problemas do país estarão resolvidos, o que todos sabemos que é uma infantilidade. Corrupção atrapalha e muito, mas sem um projeto de país não se chega a canto algum. Valentino interrompeu: você acha que os eleitores vão entender esse tipo de discurso, míster? Mr. X respondeu: é claro que a maioria não vai entender, muito menos apoiar, mas aí é que está o diferencial da campanha, continuar mentindo e apresentando um programa populista pra seduzir eleitores significa cavar um buraco ainda maior do que este em que já estamos. Janaína resolveu intervir: na sua opinião devemos denunciar as mentiras dos adversários?, mentiras otimistas que o povo sempre gostou de ouvir, não tem medo de ficar falando sozinho? Ortega pede licença pra ler um texto que acabou de receber da criação, via whatsapp: “O mais importante não é a política, é a consciência. Não tem nenhum valor, não presta nenhum serviço aquele que se livra do problema com frases do tipo “TODO POLÍTICO É LADRÃO”, e com isso acha que já deu a sua contribuição pessoal para a integridade, a honestidade… Isso e nada é a mesma coisa, ou melhor, o nada ainda vale mais porque reconhece a omissão.”
CÂMERA LENTA. As pessoas foram chegando aos poucos. Alguns só ouviam, outros se mexiam, murmuravam palavras que ninguém escutava. A atriz Stephanie Lammar perguntou a Valentino se não poderiam retomar as gravações do curta, aquele em que ela fugia de Roger Matiolli, tal como acontecia na vida real. Valentino disse que por enquanto o projeto do curta estava suspenso, em banho-maria, mas ela, como excelente atriz e apresentadora conhecida, poderia contracenar com Mr. X no telejornal Novas Ideias, que a criação estava prestes a finalizar. Stephanie respondeu com evidente desdém: voilà, chérri, antes isso do que nada.
O marqueteiro Jarbas, especialista em campanhas e armadilhas políticas, conversa com Mr. X, que por sinal ele já conhecia há muito tempo. Jarbas é um homem educado, de fala mansa e olhos que nunca se fixam nos olhos de outra pessoa, é uma figura enigmática, tanto na campanha da coligação Novas Ideias, Novos Rumos, como na própria America Pictures. Ortega, por exemplo, acha que Jarbas tem muito mais poder do que aparenta: se você está precisando de dinheiro, por exemplo, deixe a informação chegar aos ouvidos de Jarbas, em pouco tempo, dependendo da posição que você ocupa, o dinheiro chegará às suas mãos, é o que diz Carlos Ortega para os mais íntimos.
Foi Jarbas quem sugeriu o tema: o que leva uma pessoa que já tem tudo na vida a querer mais, e mais, e mais…? Ele pergunta a Mr. X, sempre em voz baixa, quase inaudível até mesmo para quem está ali perto: você não acha que isso está na cabeça de muita gente?, pensa bem, um político que já se apropriou de milhões e milhões ao longo de uma vida marcada pela corrupção, pelo suborno, chantagem, venda de sua própria influência política, um sujeito desses, por que diabos não consegue parar? Por pouco, Jarbas não fala o nome verdadeiro de Mr. X, que ele e algumas pessoas na coligação conhecem muito bem. Mr. X concordou com Jarbas e contou que ele mesmo tinha amigos que já fizeram essa mesma pergunta: eu acho que é por aí, Jarbas, ouvir gente do povo, estudantes, empresários, donas de casa, enfim, eleitores comuns sobre essa loucura de avarento, quanto mais tem, mais quer, na sua opinião por que isso acontece? Jarbas resumiu sua posição: a base de tudo é o poder, que é muito exigente. O poder é um abutre, que devora o fígado da sociedade. Para manter o poder, as necessidades de recursos financeiros são cada vez maiores, se alguém não consegue suprir essas, vamos chamar de carências, outros poderosos avançam sobre as suas presas, é uma briga de feras em plena selva de corruptos. Interessante, disse Mr. X, o poder e a fortuna andam sempre juntos, é uma glória, mas eu acho que tem um outro fator, essa coisa vicia, é uma cachaça roubar. Jarbas: vai ver que tem até uma competição entre os poderosos corruptos, pra ver quem rouba e continua impune. Mr. X: pra ver quem fica mais tempo no poder, não se esqueça, Jarbas, em países como o nosso todo poder emana dos poderosos e do dinheiro que eles acumularam. O Maranhão e suas oligarquias estão aí para provar.
CONVERGÊNCIA? O fim de semana foi agitado. A edição de domingo do jornal de maior circulação exibiu na primeira página um editorial intitulado “Na Verdade, É Tudo Mentira?”. Ao contrário do que muitos esperavam, o tema central do artigo não era a corrupção nem as diversas ações contra os políticos comprometidos e denunciados. O editorial aborda principalmente o que chamou de “perplexidade da população”, destacando que essa perplexidade atinge todas as classes sociais, “eleitores anestesiados por sucessivos golpes, socos e pontapés desferidos contra a combalida esperança, que ao final de cada round definha no canto do ringue.” Da metade até o fim do editorial, discute-se o volume de acusações dos dois lados, a tal ponto que muitos são levados a acreditar que tudo não passa de uma grande armação, com o intuito de prejudicar determinadas lideranças, que sempre se colocaram ao lado do povo. "À insistência de bandidos e seus advogados clamando por justiça, dizendo-se inocentes, somam-se acusações e ameaças a juízes e procuradores, dando a entender que a vingança encontra-se em andamento". O jornal termina afirmando que fechar os olhos à verdade é condenar o país ao atraso, criando barreiras que dificilmente conseguiremos transpor nas próximas décadas. A frase final é um convite à luta: “Estamos todos perplexos, jamais paralisados.”
TRILHA. Mara diz a Sueli que foi à sua procura no aparthotel que ela dividia com mais duas garotas: me disseram que você mudou e não me contou pra onde? Sueli se desculpa, diz que tudo aconteceu muito rápido, agora está morando na casa de Ramiro, fala baixinho: larguei aquela vida, você sabe qual. Mara não sabe se abraça a amiga por ela não ser mais uma garota de programa ou se a censura pelo risco que corre dormindo com Ramiro.
Stephanie Lammar usou seu prestígio de atriz internacional para ficar uma semana inteira sem aparecer na America Pictures. Como todas as produções foram suspensas para dar lugar à campanha política, ninguém sentiu sua falta, nem Iago, o escravo branco de Stephanie.
Janaína achou que estava na hora de esclarecer algumas coisas com Carlos Ortega, o Voice Off que andava esquecido, dando ordens enfáticas a office boys e secretárias. Jana sabia do poder que exercia sobre algumas pessoas na produtora, chamou Júlia e Varela para uma reunião no subsolo do prédio. Contou em detalhes a reunião que teve com Dr. Ângelo na sede da coligação. Os dois já tinham ouvido falar nesse todo poderoso líder da campanha, embora não tivessem contato com ele. Tem horas que Ortega se refere a ele como o mandachuva, disse Varela, mas nunca me contou que seu nome era Ângelo. Janaína corrige: Dr. Ângelo, não faço ideia de qual seria a sua reação se alguém esquecesse o “doutor” antes de seu nome. Júlia perguntou: ele é doutor de quê? Janaína disse que não sabia, mas devia ser advogado, quase todos são.
PLANO ABERTO. Dr. Ângelo mandou para a America Pictures uma proposta de mídia móvel, que deveria servir como teaser ou pré-lançamento da campanha Novas Ideias, Novos Rumos. Tudo começava com a adaptação de um veículo equipado com telão e recursos de áudio de boa qualidade. O objetivo era lançar o tema sugerido por Valentino: “Quem tem medo da verdade?”, entrevistando algumas pessoas e exibindo essas entrevistas no telão. Não era uma pesquisa, mas aparentava ser. Não havia identificação nem mensagem, apenas a pergunta que abria as entrevistas relâmpago. Para dar mais liberdade ao entrevistado, montou-se uma pequena cabine ao lado do caminhão. Cada pessoa era advertida que não podia falar palavrões nem mencionar qualquer político ou partido. Não havia um tempo definido, mas o ideal é que a participação de cada um não passasse de três minutos. Olavo ficou responsável pela parte técnica enquanto Júlia interagia com o público e organizava as entrevistas. A principal novidade foi a premiação para o melhor depoimento do dia e sua classificação para a final, na sede da America Pictures. Não havia indicação de critérios para escolha e seleção dos melhores, não havia também qualquer menção ao governo, à oposição e aos partidos políticos, mas quem quisesse poderia “descer a lenha”, Júlia esclarecia.
O que será que Dr. Ângelo está querendo com isso?, Janaína perguntou a Olavo, que, é claro, não fazia a menor ideia. Júlia achava que o mandachuva devia estar atrás de um novo talento, talvez um vice para Mr. X, disse Valentino, é só mais uma pesquisa, respondeu Mara sem nenhuma convicção, Ortega foi curto e grosso: tá querendo encher nosso saco, só Jarbas acertou em cheio: o que Ângelo quer é chamar a atenção da mídia, uma ideia nova para a coligação Novas Ideias.
LENTE MACRO. Carlos Ortega é um cara passional, o conhecido pavio curto. Leonino, não admite participar em pé de igualdade: ou manda, ou é mandado. Tem sede de poder, uma sede insaciável, se derem a ele hoje o que ele queria ontem, amanhã vai querer o dobro. Ortega não teme quem o enfrenta, mesmo que esse alguém dê mostras de conhecimento, sabedoria, iniciativa e outras qualidades muito maiores do que as que ele possui, ou não possui. Ortega sempre procura fraquezas que ele pode explorar quando achar necessário. Na America Pictures, vive repetindo para si mesmo que não tem nada contra Janaína e que a considera excelente profissional, mas que não pensará duas vezes em descartá-la, caso ela insista em contestar suas decisões na frente de todos. Em casa, Ortega é carinhoso e prestativo, “tudo pela família”, costuma dizer.
Janaína acredita sinceramente que não pretende assumir nenhuma responsabilidade a mais na America Pictures, além das que já possui, apenas acha que Carlos Ortega não é o mais indicado para comandar a produtora, muito menos para fazer a ponte com a coligação. Quem será? Janaína acha que esta e muitas outras perguntas serão respondidas por Dr. Ângelo, taí, simpatizou com ele, mas sem baixar a guarda. Dr. Ângelo não é político, deve ser uma dessas eminências pardas, que fazem questão de não aparecer, mas estão sempre no topo do organograma. Um dia, Janaína ainda vai dizer, Ângelo, vem cá, quero te perguntar uma coisa.
“Sangue ! Morte aos políticos, enforquem os deputados!
Vamos invadir o palácio e degolar o presidente, o vice.
Queremos um país livre da cachorrada ?
Sangue! Porrada! Vamos acabar com esses filhos da...”
Este foi o depoimento que mais impressionou Júlia e Olavo, feito por um moleque de seus 13 anos, se tanto. O garoto falou muito mais, cortaram na hora certa para impedir ofensas com palavras impróprias. Olavo, que andava desanimado, sem perspectiva profissional, voltou a se animar. Júlia gostou, ia comentar com Mara, que parecia interessada no cinegrafista.
Todo mundo conhece um tipo de cara como Varela, que vira chefe sem saber mandar. É um bom sujeito, bem intencionado, que detesta se meter em confusão e prefere viver na sombra. Pra tudo que é reunião, Varela leva Júlia, sua assistente, por quem é apaixonado. Acha que ninguém sabe, mas até os sofás da recepção conhecem este “segredo”. Varela é casado, incapaz de fazer mal a uma mosca, isso dizem.
Houve um roubo na produtora, não era uma grande soma, mas poderia expor a vulnerabilidade da empresa. Quase tudo na America Pictures estava encoberto por um véu de mistério, a começar por seu verdadeiro proprietário, que ninguém ali sabia ao certo quem era. Alguns comentavam que Jarbas, se não fosse um dos donos, era amigo deles, mas isso ao que parece não passava de mais um dos muitos boatos que circulavam na empresa. Quando o clima de desconfiança e especulação sobre o roubo chegou ao auge, Janaína recebeu instruções para avisar a todos que o caso estava esclarecido e que, portanto, não deveria mais haver comentários a respeito. Alguns dias antes, um fato curioso podia ter motivado esta orientação: um técnico de som agarrou por trás a recepcionista, parece que era só brincadeira de mau gosto. O problema é que a garota ao invés de gritar passou a mão numa estatueta de aço e acertou a cabeça do infeliz, que não morreu mas espalhou sangue pra tudo que é lado. O rapaz assinou a carta de demissão ainda no hospital, Vânia, a recepcionista, disse que não considerou a atitude um assédio e que atingiu a cabeça do técnico sem ver quem era, pensou que fosse um assalto. Jarbas prometeu a Vânia um cargo de secretária na campanha. Dizem que foi ele o responsável por divulgar a versão de que o técnico confessara o roubo e devolvera o dinheiro, mas essa é mais uma intriga que ninguém pode provar, nem desmentir.
A estagiária loura podia ter todas as dúvidas existenciais possíveis e imaginárias, mas nenhuma delas a incomodava tanto quanto o sentimento que alimentava em relação ao negro Ramiro: podia ser paixão (uma simples amizade não era), mas também podia ser mais uma atitude sua de enfrentar o perigo sem temor. Você é viciada em adrenalina, Mara dizia, devia saltar de paraquedas no morro do Alemão. O fato é que, mesmo que quisesse, Sueli não podia abandonar Ramiro a partir do momento em que abriram contra ele um processo por atentado violento ao pudor. Que sacanagem, quem denunciou?, perguntou Júlia, a assistente de produção. Ninguém sabia ao certo, mas parece que tinha sido a cafetina que tentava controlar Sueli e queria trazê-la de volta aos programas. A revolta foi geral, mas nada comparável à explosão de Ramiro, que ameaçava detonar a cafetina, o motel de quinta, a prostituição, os tiras sujos que exploravam as meninas, etc, etc... Foi preciso uma tropa de choque pra segurar o homem e convencê-lo que era melhor contratar um advogado do que ir em cana. Difícil, mas pelo menos serviu para Su concluir que amava aquele negão superdotado. Adrenalina pura.
PLANO AMERICANO. O comitê elaborou um questionário, disseram que não era para espionar ninguém, apenas uma aferição de tendências. A última das perguntas era a mais interessante:
“De 0 a 5, que nota você atribui à participação dos eleitores no caos em que o país se encontra, sendo 0 nenhuma participação e 5 total responsabilidade?”
Janaína marcou 5 a lápis, apagou e escreveu 3. Havia um espaço pequeno para quem desejasse justificar a nota. Janaína escreveu, zero seria paternalismo, 5 seria superestimar o voto consciente nessa democracia capenga, fiquei na média.
Havia uma outra pergunta que atraiu a atenção de Jarbas e Ortega: “Você é a favor da pena de morte para políticos comprovadamente corruptos e reincidentes? Justifique”.
Tanto Jarbas quanto Ortega foram contra, mas com justificativas diferentes. Enquanto Ortega optou pela possibilidade de erro judicial, nada incomum no país, Jarbas declarou-se, por princípio, contra a irreversibilidade de qualquer pena e acrescentou: considerando-se as masmorras brasileiras como a tradução realista do inferno, a morte nunca será a pior de todas as penas, castiguemos com o perdão. Dr. Ângelo leu e pensou: Jarbas, você é o poeta do apocalipse.
Na America Pictures, a resposta com maior frequência sobre a pena de morte foi: “somente Deus tem o direito de tirar a vida de uma pessoa”, esta com certeza também seria a justificativa escolhida pela maioria absoluta dos eleitores, dos não eleitores, dos futuros eleitores, etc, etc. Quanto a nota que deram à participação dos eleitores no caos que se instalara, a maioria preferiu isentar o povo, coitado, sempre iludido, a maioria, mas não todos, votou 4 ou 5: Júlia, Olavo, Valentino, Roger, Stephanie Lammar, Sueli, Mara e a equipe de criação. Mr. X recusou-se a participar da pesquisa, alegando o princípio da imparcialidade, ou parcialidade, algo assim sem propósito.
“Você aceitaria participar da campanha de um candidato investigado por corrupção?”, esta foi a pergunta que obteve a maior taxa de respostas SIM, com a justificativa de que ninguém deve ser punido só por ser investigado. Jarbas, Ortega, Janaína e Dr. Ângelo acharam que a pergunta foi mal formulada, motivando a resposta óbvia. Mr. X tinha outra visão: nunca deveriam ter levantado esse tipo de dúvida, muita gente pode achar que o candidato, falso ou não, deve ter o rabo preso, por isso está sendo investigado, o mundo não vive de hipóteses.
TÊTE-À-TÊTE. Ramiro escreveu um pequeno texto e entregou para Sueli com a recomendação: se você gostar, mostra ao pessoal da campanha, mas fala que foi você que escreveu, tá bom? Antes de ler, Su disse um tá bom, meio sem pensar, depois disse a Ramiro que adorou o texto, mas que não ia passar por autora de algo que não era seu, por que isso, Ramiro? Por três razões, Ramiro disse: primeiro porque é você e não eu quem trabalha na campanha, segundo por causa daquele meu problema pendente com a justiça, qualquer hora pode vir à tona e eu não tô preparado. E terceiro?, Sueli perguntou. Terceiro, você sabe qual é e eu não vou falar, disse Ramiro. Ah, não vai falar? Quer que eu fale por você? Muito bonito, seu Ramiro. Sueli largou o texto em cima da mesa e saiu batendo a porta.
De noite voltaram ao tema. Ramiro: não tô aqui pra ficar ouvindo piadinha nos corredores, tipo: olha só o macaco intelectual. Sueli: Deixa de bobagem, isso é preconceito seu, depois lá não tem nenhum racista, se tiver alguém preconceituoso é um ou dois, no máximo. Ramiro: não tô a fim de participar de reunião, não quero um emprego na America nem uma vaga na campanha, aliás, você que já tá lá não sei o que é que custa dizer que o texto é seu. Sueli: não fode, meu bem, não se faça de bobo, será possível…?
Depois de muito relutar, Sueli acabou concordando com Ramiro, sempre a contragosto, mas já que o texto era de sua autoria resolveu fazer algumas modificações. Abriu o arquivo no note, cortou algumas palavras, acentuou outras, mas no geral manteve o espírio do texto, que estava ótimo, principalmente a conclusão: “Emoção ainda é a palavra-mágica. Quem descobrir como atingir o coração do eleitor sem passar pelo nervo do pré-molar está feito.”
Depois perguntou a Ramiro se esse nervo do pré-molar seria a política no que ela tinha de mais sujo, ou seja, a grande maioria dos políticos que o povo odeia, mas que foi eleita por ele, povo, e sempre será. Ramiro disse que sim, mas que não seria possível ignorar esse batalhão de sanguessugas ou fingir que nada aconteceu, o novo ressurge das cinzas de um passado recente, que o País ousou queimar.
LINHA DIRETA. Dr. Ângelo intensificou os contatos com a produtora, primeiro com Jarbas e Janaína, depois com Olavo, Valentino e Kléber. O que ele queria? Em primeiro lugar, manter o controle sobre tudo que dizia respeito à coligação Novas Ideias. Em segundo lugar, criar uma rede confiável e capaz de assumir responsabilidades em todos os aspectos da campanha, desde a sua preparação. Havia também uma curiosidade em relação ao modo como a America Pictures julgava o candidato a candidato Mr. X. Agora, intriga, fofoca, maledicência, tudo isso Dr. Ângelo jamais faria, porque significava criar uma base podre para a rede que pretendia construir, algo que mais dia menos dia volta-se contra seus.responsáveis.
Começaram com bate-papo em grupo no Whatsapp, em seguida evoluiu naturalmente para videoconferência, sem desprezar a agilidade das mensagens por celular. Foi o próprio Dr. Ângelo quem deu a partida na discussão do primeiro tema relevante, a percepção de que a crise levara o País a um beco sem saída. Dr. Ângelo: é como se a política tivesse caído numa armadilha, imagine que todos os candidatos são bem preparados e aparentemente íntegros, mas o que fazem melhor é mentir e trapacear. A resultante desse processo é a descrença. Jarbas: um pacto silencioso, não revelado jamais, nem o medo pode detê-los? Pense na hipocrisia, esse apego a verdades formais, que obedecem às leis, mas na prática são usadas para transgredir. Janaína: verdade, valem-se do poder dos altos cargos para, se possível, comprometer todo mundo. Dr. Ângelo: na hora H os chefes das quadrilhas sabem cobrar com aquelas ameaças, tipo “não esqueça que você também pegou”. E isso vem de longe, não é de agora. Valentino: quem é que não se lembra do “é dando que se recebe”? Janaína: Bem lembrado, Vale, isso é do tempo da constituinte, parece que sempre foi normal todo mundo meter a mão no jarro da república. Talvez por isso ninguém se sente culpado, é a moral do “caixa 2 não é crime”, que o Congresso está lançando. Kléber: aí tem um negócio que eu não sei se vocês concordam, uma parte do caixa 2 é usada para pagar os famosos cabos eleitorais, encher tanque de gasolina de eleitor, distribuir óculos e cestas básicas. Muitos eleitores pensam assim: “eu não entendo de política, nem quero entender, vou votar em quem me der alguma coisa, depois, todo mundo rouba mesmo.” Dr. Ângelo: Perfeito, tudo que vocês disseram está correto, corretíssimo, mas eu quero só colocar uma pergunta pra complicar um pouco, e se o País sair desse terremoto entre aspas achando que a solução é descobrir um herói incorruptível, um novo salvador da pátria? Vamos cair de novo nessa armadilha?
LADO B. Parecia inevitável, embora ninguém soubesse quando ia de fato acontecer, a vingança do ator Roger Matiolli contra Stephanie Lammar, a cobiçada atriz que deveria contracenar com ele no curta “Fuga do Paraíso”, que alguns achavam que devia se chamar "Sol Levante". Não era do feitio de Roger apelar para a violência, por isso pensou em algo que atingiria Stephanie muito além de uma dor física. Aproximou-se de Iago e semeou nos ouvidos do jovem escravo branco dois sentimentos que podem se completar: a revolta e a vingança. Ardiloso, Matiolli sabia que precisava agir na penumbra, mais perguntando do que afirmando, elogiando qualidades que a atriz não possuía, só pra ver até onde ia a coragem de Iago para criticar abertamente sua “proprietária”. Para tirar Stephanie da vida de Iago, era preciso colocar outra mulher em seu lugar, nem de longe tão rica e poderosa, mas bem mais jovem e companheira. Foi assim que Roger induziu a aproximação de Iago e Mara, a estagiária morena. Seria também necessário encontrar uma fonte de renda alternativa para Iago, sem a qual a liberdade é apenas retórica, a crise destroçou o antigo emprego de meio expediente.
Varela não acreditou quando Júlia disse que não sabia de nenhum grupo de Whatsapp na America Pictures. Para ele, Júlia era muito mais do que assistente de produção, assim como Janaína, possuía livre trânsito no comitê da campanha e, por mais que ela negassse, os boatos cada vez mais ganhavam força na produtora e no comitê da campanha. Antes que chegassem aos ouvidos de Carlos Ortega, Janaína resolveu ligar para marcar uma reunião com Dr. Ângelo, não sem antes esclarecer que sua intenção não era agir à revelia das outras pessoas do grupo, nem procurava qualquer privilégio. O que Dr. Ângelo respondeu deixou Janaína surpresa: você sabe que já conquistou o seu lugar, Jana, e pra mim é especial há muito tempo. Janaína desconversou e marcou a reunião para o dia seguinte na America, depois considerou: o que é que ele quis dizer?, será que é isso mesmo que eu tô pensando?
Havia uma certa insegurança cerimoniosa em relação a Mr. X. Alguns achavam que ele não passava de um oportunista, capaz de tudo por um cargo na campanha e que a indicação de candidato a canditado caiu como uma luva, mas caso não fosse ele o escolhido, não haveria problema, desde que garantissem alguma verba de representação. Como a coligação Novas Ideias não se decidia, Mr. X começou a faltar aos compromissos, nas reuniões internas ficava a maior parte do tempo em silêncio, quando de suas raras intervenções tecia críticas e comentários irônicos, em resumo afastava-se cada vez mais do projeto inicial, que pretendia transformá-lo em líder alternativo.
LUZ INDIRETA. De todo boato que se preze, nunca sabemos a origem. Aquele bilhete que colocaram na bolsa de Sueli, afirmando que Mr. X era íntimo de alguns líderes da coligação, deflagrou uma onda silenciosa de insegurança, recheada com outras acusações e desconfianças. Stephanie pediu a Vânia, ex-recepcionista recém promovida a secretária executiva, para que ela levasse ao senhor Matiolli um recadinho de poucas palavras: “Eu sei que você está envenenando Iago contra mim, leia o ecoensaio O Poder do Abacate e vá se foder, Rogério” Vânia foi, deu o recado tipo telegrama musical, mas omitiu o “vá se foder”, trocou pelo “vá se ferrar”. Por pouco, Roger não esbofeteou a menina. Só parou porque Vânia pediu: calma, eu não tenho nada com isso, só tô dando o recado a pedido da atriz Stephanie Lammar, foi ela que… Não conseguiu completar a frase porque Roger saiu à procura de Iago e em seguida de uma pistolinha 22 prateada, parecia de brinquedo, mas…
Ortega pode ser acusado de tudo, menos de não ter sensibilidade para o que acontece à sua volta, nem tampouco de desprezar os perigos antes que se transformem em danos irreparáveis. Usou seu vozeirão de locutor voice off para avisar pelo sistema de som interno que estavam todos convocados para uma reunião no auditório do subsolo. O primeiro a falar, é claro, foi o próprio Ortega e para surpresa geral usou um tom conciliador, a voz baixa, pediu a compreensão de todos para o momento difícil e, para surpresa geral, comunicou que a partir daquele momento estava saindo da campanha para se dedicar à área comercial da America Pictures. Antes, ia tirar trinta dias de férias, prorrogáveis por mais trinta, dependendo do stress. Deu boa tarde a todos e saiu pela coxia, deixando a plateia de boca aberta.
STOP MOTION. A primeira reação de Janaína foi procurar Ortega, queria saber o que de fato estava acontecendo. Como ninguém sabia onde Ortega estava, pensou em ligar para Dr. Ângelo, mas desistiu diante do perigo de ser vista na produtora como uma informante da coligação. Tudo que fez foi participar de mais uma reunião inútil com Júlia, Kléber, Valentino e Varela. O resultado foi a confirmação de que nenhum deles sabia, sequer desconfiava, dos motivos que levaram Carlos Ortega a se afastar da campanha. Valentino achou estranha a ausência de Mr. X, foi o que bastou para Kléber lembrar que o candidato a candidato, quando não estava ausente, reclamava de tudo e de todos, usando a ironia e o sarcasmo sem dar nome aos bois. Eu faria a mesma coisa se me tratassem desse jeito, disse Valentino. Júlia concordou: até agora, essa coligação só tá cozinhando o galo. Varela completou: e o bicho já tá desmanchando na panela.
Janaína pensou em perguntar qual era a opinião dos quatro sobre a demora e o silêncio burocrático, mas não disse nada, achou que, assim como ela, os outros também não sabiam a resposta. Pergunta errada na hora errada, pensou.
No final do dia, Jarbas pediu a Janaína pra liberar uma verba pra comprar umas cervejas, uns refrigerantes e salgadinhos na padaria da esquina. Vamos fazer uma reuniãozinha no refeitório, mas não é pra convocar ninguém, basta avisar a Vânia que ela sai contando pra todo mundo. Jana sorriu e perguntou: não vai ficar com cara de comemoração pela saída de Ortega? Jarbas sorriu e disse: não é o que todo mundo tá querendo?, comemorar a saída de Carlos?
ZOOM-IN. Janaína foi pra casa com aquela dúvida martelando sua cabeça, ainda mais depois de algumas cervejas e raros bolinhos de bacalhau: será que estava na hora de pular fora dessa campanha anódina, tal como fez Ortega? Mas e a produtora? Novas Ideias, Novos Rumos era a grande aposta da America Pictures, senão a única. Os valores ainda estavam abertos, como quase tudo aliás na campanha, mas ela sabia que não seriam nada desprezíveis, tendo em vista o marasmo da economia. Quando estacionou no subsolo do prédio em que morava, Janaína logo percebeu o vulto de um homem, sentado no primeiro degrau da escada que levava ao hall do edifício. Primeiro ficou com medo, depois pensou em ligar para algum conhecido, talvez para a recepção da America ou para a sede do comitê. Achou melhor descer e enfrentar o “perigo”. Não demorou para concluir que o homem sentado na escada da garagem estava à sua espera e logo que ele se levantou Janaína o reconheceu. Dr. Ângelo: desculpe ter vindo sem avisar, liguei umas três ou quatro vezes, mas só caía na caixa postal. Janaína disse que não tinha problema, perguntou se ele já estava sabendo da decisão de Ortega, mas antes de responder o mandachuva perguntou: podemos conversar lá em cima?, ou em outro lugar que você prefira? Janaína percebeu que mesmo que quisesse não tinha como escapar. Pode ser aqui em casa mesmo, Dr. Ângelo, vamos subir. Ficaram uns minutos em silêncio, só no elevador Dr. Ângelo pediu: podemos acabar com esse negócio de doutor e senhor? Me chama só de Ângelo e use sempre “você” quando falar comigo, pode ser, Jana? Podia, é claro.
DIAFRAGMA. Júlia: alguém já descobriu onde Ortega se meteu? Varela: não sei e não quero saber, taí uma coisa que não me interessa. Júlia: posso saber o motivo da grosseria? Varela: não é grosseria e não é contra você, é só a pura e cristalina verdade, quem quiser respostas dá um google em “Carlos Ortega Breaknews”, vai ver que tem alguma coisa lá no face dele. Júlia: eu nem sabia que Ortega tinha um face. Varela: e eu sei lá se tem ou se não tem, falei por falar. Júlia: você tá insuportável hoje, Varela. E você tá linda, como sempre, Varela pensou, mas não teve coragem de falar.
Alguém tocou a campainha no apartamento de Ramiro. Pelo olho mágico, Sueli reconheceu a cafetina, aquela mesma que não parava de ligar, mandar mensagens e recados pedindo a volta de Su aos “bons tempos”. Sueli ficou em dúvida se abria ou não abria a porta para Roxane, que, diga-se a bem da verdade, não era nem um pouco parecida com as velhas e tradicionais cafetinas. Roxane fazia questão de explicar que seu nome não era “Rochane” e sim “Rocseine”, devia ter uns trinta e cinco, trinta e seis anos, vestia-se bem, sem exageros, era bonita, simpática e orgulhava-se de ser uma das acompanhantes mais bem pagas do Brasil, embora isto seja impossível comprovar. A dúvida de Sueli não era por temer Roxane e suas propostas, mas pelo fato de que aquele apartamento pertencia a Ramiro e ele não aprovaria nem um pouco a visita da jovem “empresária”. Quando, enfim, resolveu abrir a porta, Roxane já havia desistido e estava entrando no elevador. Sueli achou melhor conversar com Roxane em outro lugar que não o apartamento de Ramiro. As duas foram no carro da cafetina para o reservado de uma confeitaria estilosa, onde Roxane mandava e desmandava, segundo ela mesma.
Jarbas resolveu assumir a gerência operacional da America Pictures, pelo menos enquanto Carlos Ortega continuava desaparecido. Chamou Valentino, Kléber e Mara para avisar que estudava a liberação do curta de ficção “Sol Levante”, que alguns ainda chamavam de "Fuga do Paraíso", aquele mesmo que começava com o ator Roger Matiolli perseguindo a atriz Stephanie Lammar. Kléber disse a  Valentino: se liberar quero ver quem vai reunir as duas estrelas debaixo do mesmo sol.
Não demorou muito para Mr. X reaparecer na produtora. Chegou alegre e brincalhão, gritando no pátio: fofoqueiros da America Pictures, poupem suas palavras traiçoeiras, já estou sabendo o que aconteceu. Em seguida, foi conversar com Vânia, que explicava as tarefas da recepção a Maristela, a nova contratada. Macaco velho, percebeu que não era hora de falar em política, mesmo porque nenhum dos adversários da coligação Novas Ideias, Novos Rumos parecia ter um caminho definido. Vamos dar um tempo pra poeira baixar, disse Jarbas a Mr. X, que só balançou a cabeça.
SOM DIRETO. Janaína estava louca pra tomar um banho, fazer um lanche e ir pra cama, mas com Ângelo ali era impossível, pelo menos por enquanto. Cada coisa que a gente pensa sem querer, eu, hein…, foi o que veio à cabeça de Janaína enquanto oferecia ao antigo Dr. Ângelo, agora apenas Ângelo, um café de máquina, um suco, quem sabe, um copo d'água fresca. Além de sentar no sofá da sala e esticar as pernas, Ângelo só queria conversar. Janaína começou: pra você foi esperada a atitude de Ortega? Ângelo: pra falar a verdade, não dei muita bola, todo mundo sabe que Carlos é assim mesmo, um sujeito mandão, ditatorial, que não gosta de ser contrariado, quando viu que estava perdendo espaço, simulou um afastamento. Janaína: acha que ele volta? Ângelo: claro que volta, nem que seja pra se dedicar ao que ele mesmo chamou de área comercial da America Pictures. Janaína: é verdade, por falar nisso, não sei se a campanha Novas Ideias deve continuar no mesmo espaço da produtora, tem muita gente que não tem nada a ver com política se envolvendo. Ângelo: pode ser, Jana, ainda não tenho uma posição sobre isso, temos coisas demais pra resolver. Janaína: entre elas, a escolha do candidato, já passou da hora, Dr. Ângelo. Ângelo: concordo com você, mas sem o doutor, ok? Janaína sorriu e continuou: vamos falar de nomes? Ângelo: podemos, vamos começar cortando Alencar do mapa. Janaína: Que Alencar? Ângelo: aquele que até agora apareceu como Mr. X, não acredito que ele seja o cara. Janaína: Ah, Alencar… Já tivemos um presidente com esse sobrenome, era um marechal, não era? Ângelo: isso, mais conhecido como Castelo Branco. Esse Alencar que vocês da America descobriram é José de Alencar, mas garanto que ele também não escreveu nenhum romance. Janaína: tudo que eu sei é que ele andou arisco, reclamando da morosidade, coisas assim, mas, no geral, até que achei um cara bem informado, sei lá… Ângelo: talvez você tenha razão, Ortega também não ajudou. Essa necessidade que ele tem de concentrar tudo nas próprias mãos, atrapalha demais, veja a criação, até agora parece que não existe. Janaína: é verdade, nós da produtora também sentimos o mesmo problema. Tem certeza que não quer um café, uma água, um suco? Ângelo: obrigado, Jana, sei que você tá precisando cuidar da sua vida, não é? Só mais uma pergunta, depois vou embora. Janaína: não é isso, pode ficar o tempo que quiser, vamos lá pra cozinha que eu vou fazer um lanche irresistível, quero ver você recusar. Ângelo: ok, enquanto isso eu pergunto: o que acha de uma candidata ao invés de um candidato, mas não tem pressa, pense antes de responder. Janaína: respondo logo, acho ótimo, desde que essa candidata não seja eu. Janaína sorriu ao ver a cara de indisfarçável decepção do mandachuva.
GRANDE ANGULAR. Roxane fez questão de jurar que não teve nada a ver com a denúncia contra Ramiro, o tal atentado violento ao pudor, disse que não sabia de onde veio aquele boato, não que ela não tenha ficado puta com Ramiro pau-de-jumento, mas não fez nada para prejudicá-lo. Sueli não se conteve quando ouviu o apelido que Roxane acabara de inventar para Ramiro, e as duas caíram na risada. A proposta que Roxane fez a Sueli não envolvia prostituição, mas sim relações públicas, isso segundo a própria empresária. Uma vez por semana, ou uma vez a cada quinze dias, Sueli participaria de um evento, podia ser uma feira internacional, uma festa no Iate Club, talvez até a posse de algum figurão da política e seria bem recompensada, valores a combinar. Nada de motelzinho de quinta, jurou Roxane, baixaria nunca mais. Sueli contou a Mara, mas não disse nada a Ramiro, sabia qual seria sua reação. Mara achou que era muita moleza: trabalhar em feiras, exposições e festas, de quinze em quinze dias, e ainda embolsar uma bela grana, não que Sueli não merecesse, mas parece que Roxane estava querendo seduzi-la para um futuro recrutamento, cuidado, amiga, disse ela. Su respondeu: tá certo, pode ser, mas se eu não quiser, não vou, ninguém vai me obrigar. Ingenuidade, disse Janaína, depois que Mara contou a ela a proposta de Roxane e pediu sua opinião. Qualquer um se acostuma com a vida fácil e sem compromissos, de repente, aparece a proposta de uma transinha rápida com um figurão da política, quero ver recusar, mas isso vai da vontade de cada um, Jana concluiu.
Alguém parecia entrar na cabeça de Janaína sem pedir licença, mas isso é diferente, envolve apenas o poder e uma espontânea simpatia recíproca , ou será que é por aí que começa… O poder seduz, às vezes mais que o dinheiro, pense nisso, Jana, ouviu lá do fundo a mensagem sem letras nem voz.
Depois que entrou em férias na America Pictures, Ortega resolveu descansar carregando pedra, como ele mesmo gostava de dizer. Foi preciso se afastar do ambiente neurótico da produtora, envolvido com a coligação Novas Ideias, para concluir que havia se transformado em figura decorativa. Não estava a fim de enfrentar Jarbas, Ângelo, Janaína, que representavam o verdadeiro poder na America. Desafiá-los seria perda de tempo, desgaste inevitável. Agora, se estavam pensando que ele ia se conformar com a direção de um curta, mais um ou outro comercial, estavam redondamente enganados. Ligou para Vânia e assim que ela atendeu, disse: não fale meu nome, ninguém deve saber que eu estou ligando pra você, quer almoçar comigo hoje?, é só trabalho. Meio dia no Beirute, gosta de comida árabe?
Júlia e Mara saíram com a equipe para gravar cenas da cidade e entrevistas aleatórias, se possível respondendo à pergunta “quem tem medo da verdade”. Filmaram o tradicional “arrastão” na beira-mar, com uns cinquenta moleques arrancando brincos, cordões e bolsas, alguns pareciam ter menos de dez anos; no cruzamento de duas avenidas do centro, flagraram um assalto à loja de uma operadora de celular e os bandidos de capacete correndo no meio do povo, polícia e assaltantes atirando pra tudo que é lado. Olavo desceu pra filmar, por pouco não leva de recordação uma bala perdida. A coisa tá feia hoje, disse o motorista Samuel, mas Júlia achou que ainda podiam gravar uns depoimentos, pelo menos não teria sido uma tarde perdida porque as cenas gravadas eram óbvias e havia dezenas, centenas delas arquivadas, exceto o arrastão, que tinha lá sua plasticidade, na opinião de Olavo. Estacionaram a van, com o logotipo da produtora encoberto. Estenderam a faixa com a intrigante pergunta: Quem Tem Medo da Verdade? Henrique, Júlia e Mara saíram para conquistar possíveis entrevistados enquanto Samuel e Olavo cuidavam da área técnica. Ao contrário da externa anterior, agora não havia a liberdade de tema nem a possibilidade de fazer discursos para o público. Não foi difícil conseguir bons depoimentos. A maioria acha que é o governo quem tem medo da verdade. Quando estimulados a escolher outros que também a temiam, apontavam a oposição, a polícia, os médicos do posto de saúde, comerciantes desonestos, maridos infiéis, houve até quem indicasse os americanos e o Estado Islâmico. Posso ligar pro Valentino e perguntar se respostas desse tipo servem para montar a campanha teaser, Mara perguntou, Júlia concordou, Vale disse.que.tudo.bem.
PROJEÇÃO. O que Ortega queria com Vânia? Primeiro comprovar a inteligência, a rapidez de raciocínio que a garota já demonstrara quando acertou a cabeça do técnico de som, ao mesmo tempo em que não o acusou de assédio. Tudo não passara de uma quase trágica coincidência. Além disso, Ortega queria a ajuda de Vânia para identificar na produtora quem estava do seu lado e quem estava contra ele, não se trata de espionar ninguém, disse Ortega, só quero saber quem é quem nessa história e você pode me ajudar sem se comprometer, Vânia. Claro que Ortega sabia o tamanho do risco que corria ao tentar envolver a jovem Vânia em algo tão incerto, para dizer o mínimo. Sabia também que poderia prejudicá-la, ao contrário do que prometera, mas não era só isso que Ortega sabia.sobre.Vânia.
A amizade entre Iago e Mara pegou no tranco, como Roger gostava de dizer. Um pouco mais difícil foi convencer os dois que eles deviam se apaixonar e não ser apenas amigos. Roger conseguiu um emprego de meio expediente para Iago e um quarto de pensão, onde ele podia dormir a salvo da tirania de Stephanie. Só ver a atriz espumando de raiva, para Roger já era um ótimo começo. Com a saída de Carlos Ortega e a produção do teaser ocupando Valentino, Kléber e uma parte da equipe, o projeto do curta Sol Levante foi mais uma vez adiado. Como o cachê de Stephanie estava acima do orçamento da campanha, a atriz foi dispensada, ou melhor, ficou em stand-bye para ser utilizada na campanha.
“A realidade do país hoje é muito diferente de tudo que já vimos no passado ou imaginamos para o futuro, não há um modelo a seguir”, enviaram da coligação para o painel eletrônico no subsolo do prédio da America Pictures. Ficou ali brilhando em letras verdes, mas poucos paravam para ler e meditar, ninguém se deu ao trabalho de concordar ou discordar, a não ser Jarbas, que disse a Janaína: vamos passar esse tema para a criação, aproveitando a ausência de Carlos. Quem sabe, não vem algo bom de lá, Janaína concordou.
AÇÃO X IDEIAS. Vânia, apesar da pouca idade, não era de se encolher, nem fingir que aquilo não era com ela. Pediu um tempo pra pensar, mas nesse tempo, Ortega podia ficar tranquilo, ninguém saberia daquela conversa. Ortega disse que tudo bem, rabiscou no guardanapo o número de seu novo celular, combinaram que ele seria “amigo” e ela “amiga”, se alguém investigasse não ia saber que os dois se comunicavam. Vânia pensou, pensou, achou que Ortega não pedia nada demais, por enquanto. Não se sentia bem no papel de informante, mas se algum mau caráter da America estivesse armando uma intriga, seria correto ajudar o injustiçado? Ou era melhor não se meter em briga de cachorro grande?, como sua mãe sempre dizia. Ortega sabia que Jarbas devia ter influência sobre Vânia, não só pela rápida solução que deu ao episódio da estatueta de aço, que terminou com a promoção da recepcionista à secretária executiva, mas também porque a garota esbanjava simpatia e bom humor, Jarbas sabia como isso é importante para mudar o clima de baixo astral em qualquer empresa. Ortega escreveu uma carta anônima, endereçada à America Pictures, com o título “A quem interessar possa”. Sabia que a primeira pessoa a ter contato com a carta seria Vânia, mas não sabia se ela ia abrir e ler ou entregar a outra pessoa. Quando a carta chegou, Vânia hesitou em abri-la, era nova na função, ainda insegura. Jarbas não estava na produtora, Vânia achou que a carta poderia ter relação com Ortega, preferiu entregá-la a Janaína, que rasgou o envelope, leu rapidamente o conteúdo e devolveu o papel a Vânia dizendo: arquiva isso, primeiro abra uma pasta com o nome “Intrigas”.
A campainha tocou, Ramiro atendeu pensando que era Sueli, abriu a porta com um sorriso, Ortega disse: não sei se você lembra de mim. O sorriso não desapareceu do rosto de Ramiro, nem se transformou em outra expressão qualquer que não fosse a cordialidade. Ramiro disse que sim, que lembrava do senhor Carlos Ortega, encontraram-se uma ou duas vezes na produtora America Pictures, Ortega pediu que Ramiro não o chamasse de senhor, perguntou se podia entrar. Ortega entrou, sentou no sofá da sala, bebeu um gole da água gelada que Ramiro ofereceu e os dois começaram um diálogo sobre o artigo que Sueli teria escrito. Na verdade, o que Ortega queria era sondar o que ele e Sueli pensavam sobre o momento político, as alternativas e, principalmente, o que os dois achavam da America Pictures, se faziam alguma ideia da divisão interna, de todas as dificuldades de comunicação entre a produtora e a coligação Novas Ideias. Ramiro não era íntimo de Ortega, nem Sueli tampouco. Mas também não tinha nada contra ele, sabia apenas que havia um conflito e Sueli não queria tomar partido. Por isso, desconversou. Ortega percebeu que o namorado negro de Sueli pisava em ovos, por isso, também desconversou, limitou-se a elogiar o artigo e em determinado momento jogou a isca: não concordei com uma coisa, Ramiro, por que você acha que o povo aceita facilmente a mentira como inerente à política. Ramiro respondeu sem pensar, eu não disse isso, quer dizer, não me lembro de Sueli ter escrito essa frase. Foi o bastante para Carlos Ortega concluir o que já desconfiava, o autor do texto era mesmo Ramiro, Sueli, no máximo, era coautora. Ortega se desculpou, disse que devia ter lido em outro texto, talvez naquele editorial “Na verdade, é tudo mentira”, não queria constranger Ramiro. O que eu gostei mesmo, disse Ortega, foi aquele pensamento sobre a emoção: atingir o coração dos eleitores sem passar pelo nervo do dente, algo assim, genial. Ramiro, que de bobo não tinha nada, ficou pensando depois que Ortega se despediu: o que será que ele quer? Claro que está achando que fui eu que escrevi o artigo, jogou a isca e eu mordi, mas que merda…
SINCRONIA. Na primeira vez que ouviram o nome Força Maior na America Pictures muitos acharam que se tratava de uma nova organização criminosa, tipo Comando Vermelho ou PCC. Depois, começaram a chegar alguns panfletos radicais, com palavras de ordem contra a politicalha e seus politiqueiros, ladrões da confiança do país. O grau de radicalização foi aumentando, até que apareceu nas TVs abertas a frase: “Cadeia é pouco. Vem aí a justiça que todos queremos, por motivo de Força Maior”. O vídeo, nesta inserção de 30 segundos, era uma sucessão de cenas de guerra, canhões, granadas explodindo e supostos bandidos algemados à beira de um precipício. Sobre esta cena freezada entra em sobreposição o carimbo, com efeito sonoro: “Cadeia é Pouco.Vem.aí.Força.Maior.”
Como era de se prever, o ambiente esquentou na Coligação Novas Ideias, que esteve a ponto de dispensar a produtora America Pictures, a quem alguns acusavam de imobilismo e burocracia em excesso. Era o que eu temia, Jana, disse Ângelo no Skype, mais dia, menos dia, ia aparecer a vertente rancorosa, a velha linha dura, o que você acha? Janaína: sobre essa Força Maior, não acho nada por enquanto, foda é que encostaram a gente na parede. Ângelo: e aquele teaser “quem tem medo da verdade?”, vai parecer plágio se a Novas Ideias colocar no ar agora? Janaína: não pensei nisso ainda, aliás, não pensei direito em nada, quer vir até aqui amanhã?, podemos convocar uma reunião executiva de verdade, com Jarbas, Varela, Júlia, Valentino, Kléber, o candidato a candidato Zé de Alencar, pelo menos podemos sentir a reação do pessoal. Ângelo: preferia só nós dois na sua casa. Janaína: essa fica pra depois. Ângelo: Tá certo, pode convocar a reunião pra amanhã à tarde, um beijo. Janaína: Outro... Quando encerrou a conexão, Janaína.ficou.com.aquele.beijo.na.cabeça.
O “Amigo”, enfim, recebeu no celular uma mensagem da “Amiga”: Chegou uma carta, tirei uma cópia, quer que eu te mande por e-mail? O “Amigo” digitou: Melhor não, traz a carta, mesmo lugar, amanhã no almoço. Claro que Ortega sabia que carta era aquela, foi ele mesmo quem mandou para a America. Gostou de comprovar que podia confiar em Vânia, mas era bom manter-se em alerta, aconselhava o velho paranoico, que vigiava amigos, inimigos e aqueles que nem o conheciam, estes em particular. Desde pequeno Carlos sabia que era vítima de muitas perseguições, achava que nunca se arrependeria por desconfiar, por disfarçar que desconfiava, nem por fazer testes para identificar “inimigos ocultos”. No restaurante, Vânia entregou o xerox da carta a Ortega, que fingiu ler e se indignar. Em resumo, Ortega acusava Ortega de ser um quinta coluna infiltrado na America Pictures, com o objetivo de passar informações aos adversários da coligação Novas Ideias, Novos Rumos. Vânia não sabia o que significava o termo “quinta coluna”, mas ficou claro que se tratava de um traidor, espião, algo do tipo, por isso nem perguntou. Obrigado por acreditar em mim, Carlos disse, em seguida quis saber que medidas Jarbas e Janaína iam tomar. Vânia revelou que, a mando de Janaína, abriu uma pasta com o título “Intrigas” e nela arquivou a carta. Só isso, Vânia? Tenho certeza que vão investigar e divulgar essa intriga pra todo mundo, disse Ortega. Achou melhor não oferecer dinheiro a Vânia, preferiu que ela pensasse em casa e escrevesse o que desejava que ele, Ortega, fizesse por ela, coisa de amigo. Vânia gostou da proposta, ficou de pensar, não ia mesmo aceitar um centavo de Ortega ou de qualquer outra pessoa da America.Pictures.
Depois de muito meditar e perder algumas horas de sono, Sueli concluiu que contar seu encontro com a cafetina Roxane poderia abrir uma crise, uma séria crise, na sua relação com Ramiro, mas não contar seria correr o risco de inviabilizar o clima de sinceridade e destruir o que havia entre os dois. A vida ensinou ao negro Ramiro como controlar a raiva e jogar água fria no ódio que ameaçava ferver dentro dele. Sua conclusão foi parecida com a de Janaína, o que Roxane fez, ao oferecer trabalho como recepcionista em feiras e exposições, foi apenas um aperitivo, o jantar viria mais tarde. Quem se acostuma com bons rendimentos por um trabalho tranquilo e gratificante, dificilmente irá recusar a oferta de servir como acompanhante, que fica a poucos passos de uma suíte de luxo de um hotel cinco estrelas, era o que Ramiro pensava e Sueli concordou. Tudo resolvido, a ex-garota de programa ligou para a empresária, antiga cafetina. Disse que agradecia, mas não ia aceitar a oferta. Roxane não argumentou, nem insistiu; lá no fundo Sueli percebeu que era mais uma oportunidade na vida que escorria.entre.seus.dedos.
CLONES e DRONES. Jarbas contou uma história que pouca gente entendeu: imagine que um marchand rouba um quadro autêntico de um pintor famoso, Van Gogh, por exemplo. O que ele quer é apenas expor o quadro em sua galeria e medir a reação do público. O marchand identifica o quadro como reprodução. Na pequena ficha ao lado, inclui a data e o nome inventado para o artista autor da cópia. As pessoas que frequentam a galeria param para observar o Van Gogh,, às vezes fazem algum comentário, um cliente chega a dizer: já vi cópias melhores, como acreditam que se trata de uma reprodução, a maioria apenas balança a cabeça e segue adiante, sem dar maior importância ao que acabaram de ver. Jarbas continua a história traçando um paralelo com a realidade que a America Pictures e a Coligação Novas Ideias, Novos Rumos enfrentam: Ortega se afastou, era um direito dele, mas entre nós há quem pense que foi uma traição o que ele fez. Por enquanto, o que sabemos? Surgiu uma nova coligação, parece que vão usar ou defender o uso da força para resolver algo que só depende de ideias, isso é o que achamos. As ideias são o quadro verdadeiro de Van Gogh, a força é a falsa informação de que o quadro era falso, apenas uma reprodução. O que salva o marchand é que ninguém vai roubar o Van Gogh que ele mesmo já roubou. Quem quer se arriscar por uma tela falsa, mesmo sabendo que é uma perfeita imitação de um Van Gogh? O que todos nós queremos é conhecer as ideias desta nova força, certo? Com ou sem Ortega.
Janaína concordou com a proposta de Jarbas, disse que o momento não era para especulações e sim para agir, editar o teaser e pôr no ar o quanto antes, depois de um certo tempo ninguém ia lembrar que coligação ou partido foi o primeiro, quem foi o segundo. Valentino disse que a edição já estava em andamento e só faltava definir alguns detalhes, como, por exempo, saber se a Novas Ideias assinaria ou não o teaser, sem assinatura vai ficar parecendo chamada de novela, disse Kléber. Júlia perguntou a Jarbas o que a America Pictures ia fazer se Ortega mudasse para uma outra coligação, o problema é que ele conhece isso aqui a fundo, melhor do que ninguém. Jarbas achou que era difícil prever as consequências, é melhor não antecipar os problemas, temos que continuar agindo como se Carlos estivesse de férias, foi isso que ele disse, não foi? Esse é o Ortega que nós conhecemos, se ele vai  criar um clone de si mesmo para negar tudo que acreditou no passado, só nos resta o enfrentamento. Não seremos os primeiros a atacar, mas se quiserem guerra, a America e a Coligação Novas Ideias estão preparadas. Kléber e Valentino concordaram com Jarbas, acho que ainda hoje, no máximo amanhã pela manhã, podemos apresentar a primeira versão do teaser, disse Kléber. Janaína achou ótimo e Jarbas pediu a todos o mais absoluto sigilo e deu por encerrada a reunião alertando: preparem-se, a primeira batalha parece que já começou.
FOGO AMIGO. Enquanto esperava Ângelo, sentada à mesa do Café e Bar Avenida 122, Janaína folheava sua agenda e pensava que os novos rumos atropelaram as velhas ideias: as coisas vão esquentar, antes que os eleitores identifiquem quem é quem nessa história. Ângelo chegou, beijou o rosto de Janaína, pediu um café igual ao dela e disse: será que já está na hora de detonar o inimigo pra ele saber com quem está lidando? Jarbas me ligou, está possesso com essa traição de Carlos. Janaína interrompeu: traição que nem sabemos ainda se é verdadeira. Sorriu e comentou: uma falsa traição, só na política mesmo. Ângelo disse que Jarbas acreditava que alguém na produtora poderia ser informante de Ortega, mas ainda não podia provar nem garantir cem por cento. Janaína: não quero dizer que seja paranoia de Jarbas, mas é cedo para plantar a semente da desconfiança na America e na Coligação, se vamos fazer isso, Ângelo, tem que ser coisa de profissionais, ou corremos o risco de jogarmos uns contra os outros. Foi a vez de o mandachuva abrir levemente aquele sorriso enigmático e dizer: Jana,.estamos.sempre.pensando.juntos.
Roger recebeu um bilhete de Stephanie: “Venha ao meu quarto no Hotel , hoje às 16 h”. Roger foi, é claro. Stephanie abriu a porta, Roger jura que ela estava inteiramente nua, a atriz nega, mas não revela seus trajes no momento. Roger forçou sua entrada, Stephanie tentou impedi-lo. Roger entrou, Stephanie diz que foi ele que rasgou suas vestes, acusou o ator Matiolli de misoginia e tentativa de estupro. Stephanie gritou, veio gente, muita gente. Abriram a porta com a chave mestre e tiraram Roger de cima de Stephanie, à força. Roger passou parte da noite preso. O delegado Amaral Filho ameaçou colocá-lo junto com outros presos: assaltantes, ladrões de bancos, estelionatários, todos tinham a mesma opinião sobre o destino a ser dado aos estupradores: olho por olho, dente por dente. Juraram estuprar Roger e depois matá-lo, deixando seu corpo sangrando, pendurado de cabeça pra baixo. Roger Matiolli clamava por justiça, queria saber o valor da fiança, exigia o direito de se comunicar com seu advogado. O delegado responde que estupro é crime inafiançável e quanto ao telefonema para o advogado, estaria liberado assim que as linhas voltassem a funcionar, mas que para isso seria necessário pagar as contas em atraso. Roger achou que estava perdido. Para surpresa de Roger, do delegado, do escrivão e de todos os presos ali recolhidos, Stephanie entrou na delegacia por volta da meia noite, vestindo um minishort e uma blusinha transparente. A galera foi à loucura, mas os presos e as autoridades se decepcionaram quando Stephanie Lammar comunicou à Sua Excia, o doutor delegado Amaral Filho, que desejava retirar a queixa contra o ator Matiolli, perguntada pelo motivo, informou que se tratava de solidariedade artística: uma atriz não tem o direito de desgraçar a vida de um colega ator, a não ser nos palcos dos teatros ou nas minisséries das TVs, disse ela.
O teaser foi ao ar com a chancela da Coligação Novas Ideias, Novos Rumos. Aquilo foi uma bofetada na cara dos acomodados. Valentino e Kléber editaram as entrevistas mais fortes, a maioria com os garotos radicais demolindo o sistema e seus representantes. Contudo, além dos tradicionais xingamentos e impropérios, de vez em quando aparecia algo de uma lucidez surpreendente: “A corrupção pode arruinar qualquer país, basta que se transforme em rotina, a rotina do poder agindo em silêncio, ratos roendo as estruturas”. Uma senhora surpreendeu ainda mais, ao concluir: “Tal como as pessoas, um país não pode depender da opinião dos outros para ser feliz. Somos nós, aqui nesta terra arrasada, que precisamos recuperar a felicidade que um dia existiu. Ninguém fará nada por nós, nem devem fazer, é nosso trabalho”.
Naquela sexta-feira, o trânsito já estava pesado desde manhã cedo. Chovera muito à noite, a ponto de carregar galhos e folhas para os bueiros, que logo começam a regurgitar, inundando ruas e calçadas. Às seis e meia o asfalto ainda estava molhado, o frio era intenso e quem estava fora de casa tinha algo a fazer, de modo que até a legião dos sem-teto saíra debaixo das marquises, liberando a entrada dos prédios e lojas. O homem que desceu do carro segurando um pacote media aproximadamente um metro e oitenta, era magro, usava uma boina escura ou boné, vestia uma capa de chuva sobre o paletó ou jaqueta, era difícil identificar sua idade, talvez uns trinta, trinta e cinco. Por que tudo isso? Foi ele, esse misterioso sujeito, que deixou o tal pacote na porta da America Pictures, com explosivos poderosos o bastante para destruir o muro, o portão, a guarita, além de quebrar vidraças e restaurar o medo.como.protagonista.da.política.
COADJUVANTES. Não é ameaça, mas se a coisa continuar nesse ritmo vamos cair matando, foi o que Varela disse a Júlia quando os dois se encontraram depois da explosão. Júlia disse que esse era o perigo, atacar sem saber a quem: foi uma provocação, Varela, pra que?, ninguém sabe. Varela disse: não sabemos quem, nem por que, muito menos pra quê, você perguntou à Janaína se ela ou Dr. Ângelo têm alguma pista? Não, Júlia não perguntou, mas sabia que pista de verdade ninguém tinha até o momento, já avisaram a polícia, a TV, os jornais, vieram os correspondentes estrangeiros, queriam entrevistar o candidato, alguém disse que não havia candidato, ainda, aí queriam entrevistar o presidente do partido, em resumo, uma loucura como nunca a America Pictures havia presenciado, nem mesmo naqueles dias eufóricos quando um comercial de sua lavra ganhou o Grand Prix no Festival de Cannes, isso já fazia algum tempo. Nessas horas, Carlos Ortega faz falta, Sueli comentou com Maristela, a nova recepcionista, que não podia dizer nada a respeito de Ortega, nem de qualquer outro ali na produtora, mas Sueli ignorou o silêncio da recepcionista e resolveu explicar que Ortega já teria dado uns trezentos telefonemas, provavelmente teria produzido um documentário com cenas da destruição e cujo nome bem que poderia ser esse: a destruição da democracia – por que querem calar nossas ideias, Maristela riu e achou genial a ideia de Sueli, com ou sem Ortega, por que você não dirige, Su? Vânia ouviu a pergunta de Maristela a Sueli, as duas contaram a ela o que acabaram de conversar, inclusive sobre Carlos Ortega e a falta que, diz Sueli, ele fazia. Vânia mandou uma mensagem ao amigo, resumindo o que ouvira, não demorou muito e recebeu a resposta: não entendi nada, lanche às 15 hrs no lugar de sempre, pode? Podia. Vânia, que loucura é essa? Detonaram a produtora? Vai dizer que tem gente pensando que fui eu o mandante?, Ortega perguntou  ao avistar a amiga na mesa de canto.do.Beirute.
POLÍTICA LÍQUIDA. Certas coisas não se perguntam diretamente, coisas como “você me traiu, querida?” ou “quantas vezes você dormiu com a minha melhor amiga, seu canalha?” Certas coisas, se queremos descobrir, não podemos perguntar. Esse tipo de atitude resume bem a personalidade de Dr. Ângelo, Ângelo para poucos. Ninguém o viu na América ou na sede da Coligação Novas Ideias durante os dias subsequentes ao atentado. Não sei por que a gente perde tanto tempo com esse mandachuva da Coligação, disse Kléber. Tá com saudades de Carlos? , respondeu Valentino. O que vale mais para você, Valentino, os berros de Ortega ou o silêncio de Dr. Ângelo? Mal sabiam eles que era essa a impressão que DR. Ângelo queria passar à maioria dos que acompanhavam sua vida na política. Fora da política, como ele mesmo gostava de dizer, era um assunto que não estava aberto a discussões. É claro que Janaína não era a primeira mulher na vida do mandachuva, mas, pensava ele, talvez fosse a definitiva, a última? Nunca!!! Ângelo não era dado a pensar em tragédias. Vou mandar um táxi te pegar no Avenida 122, às cinco e meia em ponto, combinado?, foi a mensagem que mandou a Janaína dois dias depois do atentado. Jana respondeu com um simples S. Às cinco e vinte, o táxi chegou, estacionou em frente ao Avenida, o motorista, um jovem negro de careca lustrosa, desceu do carro e ficou por ali esperando a passageira. Parecia uniformizado, com uma calça cinza, paletó branco, gravatinha borboleta, o carro era preto e não possuía taxímetro. Foi cortês com Janaína, identificou-se como emissário do Dr. Ângelo, abriu a porta para ela, ligou o ar e partiu em direção ao flat.Promenade.
O conceito de política líquida tem origem na vida líquida, do filósofo polonês Zsygmunt Bauman, Ângelo disse. Janaína conhecia por alto, já tinha ouvido falar, a base era a velocidade do mundo moderno, não é isso? Mais ou menos, é por aí, Ângelo respondeu, as pessoas não conseguem acompanhar as transformações, tudo muda rapidamente, mas as velhas estruturas não desaparecem, do mesmo jeito que a revolução digital é uma realidade da qual ninguém escapa, a burocracia, o mundo dos papéis e documentos inúteis, mas sempre exigidos, ainda permanece bem vivo. Janaína completou: entendi, vem daí a insegurança, a falta de compreensão do que acontece. Ângelo: a política líquida pode ser democrática, quase ao mesmo tempo em que detona explosivos para atingir um  partido,.uma.coligação.
A Coligação Novas Ideias, Novos Rumos pediu a Jarbas, o coordenador de marketing da America Pictures, uma análise pessoal sobre as causas prováveis e as principais consequências do atentado a bomba contra a produtora. Jarbas escreveu um pequeno esboço: “O principal adversário da Coligação e da produtora não é outro candidato ou outra coligação. Nosso adversário é aquele que não quer eleições limpas, que não quer moralizar a política e sim desmoralizá-la ainda mais. São os que procuram divulgar a tese de que não há quem se salve neste mar de lama em que nos meteram. Segundo eles, ninguém presta, não temos em quem votar porque os políticos são todos iguais, ladrões, gente desonesta que há anos se aproveita da ingenuidade e afastamento dos eleitores para assaltar os cofres públicos e levar o País à bancarrota. Essa gente usa os partidos políticos e até mesmo a imprensa para divulgar esse desânimo e pregar soluções antidemocráticas, como esta praticada contra a America Pictures e a Coligação Novas Ideias. “ Jarbas enviou o texto para Janaína e Ângelo, explicando os motivos pelos quais escreveu o esboço e pedindo sugestões, acrescentou que na sua opinião o atentado não tinha nada a ver com as inserções do teaser no rádio e na TV, para ele a explosão nem era contra a America Pictures ou a Coligação, podia ser contra qualquer outra que teria o mesmo efeito, o de amedrontar, criar o pânico antes da ação. Jarbas só não podia adivinhar que os dois receberiam a mensagem com o texto anexo ao mesmo tempo, quando estavam no flat, conversando e abrindo espaço para a emoção,.em.todos.os.sentidos.
PROVOCAÇÕES.
O mexicano Roberto Esquivel Cabrera tem o maior pênis do mundo:.48.cm
Um mexicano de 52 anos diz ter o maior pênis do mundo. E isso tem arruinado a sua vida. Ele gostaria de ser considerado deficiente pois o membro não permite que ele trabalhe, forçando-o a viver de assistência. A sua vida social é deprimente também, diz ele. De acordo com o jornal, as mulheres têm muito medo de ficar com ele. O seu pênis supostamente mede 48,2 centímetros de comprimento e a circunferência da glande 25 centímetros. Cabrera mostrou para os incrédulos uma foto de imagem do seu pênis e a imagem circulou rapidamente por vários jornais de língua espanhola incluindo Telemundo e La Opinion. Cabrera disse que queria, ao menos, ser reconhecido pelo Guinness World Records, mas um oficial disse ao jornal britânico Daily Star que a organização não tem essa categoria. Até o momento, acreditava-se que Jonah Falcon tinha o maior pênis do mundo, com 34 centímetros.de.comprimento.
Alguém colocou essa notícia do jornal Vanguardia na mesa de Sueli. Impossível identificar o autor da crueldade, ele teve o cuidado de desligar as câmeras da sala de Sueli e parece ter agido durante a madrugada, após o atentado contra a produtora. Su não sabia se ria ou se chorava, Mara foi lá consolar a amiga, mas também não encontrou palavras. Júlia disse para as duas: imagine se essa covardia chega ao conhecimento de Ramiro. Sueli não deixou por menos: vou contar a ele e pedir que nos ajude a identificar o autor da brincadeira, Ramiro é muito calmo, centrado, mas não pise no calo dele. Pela primeira vez, Mara teve uma empatia com Ramiro: cuidado pra não magoá-lo, Su, esse assunto é muito.delicado.
Vânia e Carlos Ortega conversavam no Beirute. Vânia disse que até aquele momento ninguém sabia na America Pictures quem poderia ser o autor ou os autores intelectuais do atentado, sabiam apenas que um homem misterioso, usando uma capa, um boné ou um chapéu, descera do carro com o pacote da bomba e depois foi se embora, esse é só o executor, Ortega disse, Vânia concordou e contou a Ortega o que Sueli disse a respeito de um documentário, com a destruição que a explosão provocara e a pergunta: “Quem quer destruir nossas ideias?” Sabia que Ortega ia gostar, o que de fato aconteceu. Precisamos convidar Sueli pra tomar um café aqui com a gente, disse Ortega. Vânia concordou e disse que outras pessoas na produtora pareciam simpatizar com ele. Quem, por exemplo?, Carlos perguntou. Vânia lembrou de Roger, o ator, Iago, o amante da atriz Stephanie… ia falar de outros, talvez a nova recepcionista Maristela, mas nessa hora a paranoia voltou à carga e Ortega achou melhor esperar um pouco antes de chamar outras pessoas da produtora, estou gostando de conversar com você aqui no Beirute, mas tenho medo que alguém nos veja e isso pode te prejudicar, Vânia. Paternal, Vânia pensou e sorriu.
Apesar da enorme intimidade alcançada em pouco tempo, Ângelo não contava tudo a Janaína e vice-versa. Ângelo não contou, por exemplo, que há pouco tempo mudara de cidade para escapar do assédio de sua mais recente ex, com quem teve um rápido, porém tórrido, romance. Também não contou que até conhecer Janaína desaprovava a contratação da America Pictures como produtora da campanha, não porque desconfiasse das pessoas e de sua capacidade profissional, mas em razão da falta de experiência na área política. Ângelo não sabia se revelava a Janaína suas dúvidas sobre os critérios para a escolha do candidato da Coligação. Em conversa com Jarbas, chegou a cogitar a possibilidade de deixar José de Alencar como provável candidato até que surgisse um nome definitivo. Jarbas entendeu que Ângelo estava querendo transformar o velho Mr. X na figura de um boi de piranha, Ângelo negou, mas talvez Jarbas tivesse tocado no ponto mais sensível da personalidade do mandachuva, a sua capacidade de agir com absoluta frieza para alcançar o que ele considerava o melhor resultado, mesmo que para isso tivesse que passar por cima de acordos, amizades, interesses. Resolveu contar a Janaína a conversa que teve com Jarbas, só pra ver sua reação e descobrir como ela agiria. Jana ficou com pena de Alencar, achou que era melhor contar essa possibilidade a ele, oferecer alguma recompensa pra ver se Mr. X aceitava ficar no banco de reservas. Vai que não aparece ninguém melhor do que Zé de Alencar, Jana disse. Ângelo lembrou a Janaína que Alencar era linguarudo, que podia chegar às raias da falta de educação e armar verdadeiros barracos políticos se por acaso se sentir traído: tem mais, se ele for mesmo candidato pode ser apedrejado em praça pública, mais ainda do que as mulheres infiéis dos muçulmanos radicais, Ângelo respondeu. Nessa hora percebeu o traço maquiavélico no caráter de Janaína: perguntamos agora se Alencar tem algum pecado que o inimigo possa explorar, se ele mentir e se fizer de santo, azar o dele, aí sim vira boi de piranha. Ângelo disse: azar o dele e o nosso, já pensou no desgaste? Janaína: só não haverá desgaste político se a própria coligação descobrir os podres, é ou não é? Ângelo: verdade, e temos que ter um nome forte pra substituí-lo, alguém com muita personalidade, inteligência e intuição para a política,  beleza? Janaína: beleza, mas não me olhe assim, Anjo.
BASTIDORES. Sueli achou melhor levar o xerox da reportagem para Ramiro ler ao invés de contar com suas próprias palavras. Disse apenas: olha que sacanagem, deixaram isso em cima da minha mesa na America Pictures. Enquanto Ramiro lia, Sueli foi imaginando o que se passava em sua cabeça, só relaxou quando viu que seu namorado reagiu com bom humor, sorriu, para em seguida comentar com ela: 48 centímetros!, assim é demais, né, Su? Naquela noite, se amaram loucamente, em todos os sentidos, mas sempre respeitando os limites da natureza.
Tava pensando umas coisas, disse Jarbas. A diretora financeira da America Pictures, que acumulava a função de gerente de planejamento, esperou com interesse o que Jarbas tinha a dizer. Na opinião de Janaína, quanto mais cabeças pensantes, melhor. Jarbas explicou o que estava pensando: assim como os homens mudam a política, a política também muda os homens, vamos fazer uma análise fria da realidade, vou logo alertando que a intenção não é julgar ninguém, nem condenar, nem absolver, não é nosso papel, o que eu quero é entender. Jarbas continuou: do mesmo jeito que um trabalhador, um profissional qualquer, vai aprendendo com seu trabalho, com a sua rotina, penso que mais ou menos a mesma coisa acontece com os políticos. Parto do princípio de que ninguém é santinho, mas nem todos são bandidos ávidos por se beneficiarem com negócios, lícitos ou ilícitos, o político é um profissional que pensa primeiro em si mesmo e ao pensar em si mesmo o que ele deve fazer é negar que esteja agindo em seu próprio benefício, e sim no interesse do povo, da pátria, complicado? Janaína: não, não é complicado, o problema é que é muito difícil ouvir isso que você falou sem achar que a sua intenção é arranjar uma desculpa ou colocar gatos e lebres no mesmo saco, mas continua o seu pensamento. Jarbas: você tem razão, por isso mesmo é que eu não falo com qualquer pessoa, só pra quem sabe o que eu penso a respeito. No fundo o que eu quero é saber se existe alguma forma de barrar a má conduta no mundo político sem lançar mão de ameaças e acusações, muitas vezes infundadas, eu sei que isso nos remete à consciência de cada um, Jana, mas a única maneira que temos para despertá-la é sempre através do medo de ser pego com a boca na botija? Janaína: pra mim, o medo é  temporário, ele só existe enquanto não se descobre um modo seguro de burlar as normas e trazer de volta os tais benefícios ilegais ou imorais. Jarbas: é um esforço hercúleo esse de conciliar os interesses pessoais com a missão de agir em defesa do país e de seus eleitores. Acho que é romântica a pretensão de um político ser reconhecido apenas por seus atos, honestos e coerentes, e que isso também dará o que ele precisa no plano pessoal. Janaína: tem mais o seguinte, pensa que os fiscais, a imprensa investigativa, as ONGs, o Ministério Público, etc., eles também acabam viciados na prática da denúncia. Jarbas: perfeito, ótima dedução, na maior parte do tempo somos obrigados a viver num mundo dividido entre os que de um lado fogem da verdade ou tentam encobri-la e do outro aqueles que são obrigados a descobrir “verdades” impactantes, porque esse é o seu trabalho, o seu negócio. Janaína: e nos dois casos o peso dos interesses pessoais está subentendido. Talvez por aí se explique a razão pela qual as pessoas comuns, os eleitores bem intencionados, procurem viver fora desse mundo sujo.
Convidaram Ortega para uma reunião misteriosa. Na hora ele pensou na Força Maior. Contou a Vânia, que ficou preocupada: não acha que pode ser uma armadilha, Carlos? Ortega disse: já pensei nisso, mas se eu não for não fico sabendo, depois o que é que podem fazer comigo? Um sequestro? Uma chantagem? Vânia riu: acho mais provável que eles queiram que você dê informações sobre a America Pictures e a Novas Ideias, um espião, algo assim. Ortega ficou vermelho, irado: espião?, espião eu??? Vânia disse: calma, Carlos, falei por falar…
Como se tudo já não estivesse confuso na produtora, eis que surge mais um complicador: os eternos candidatos a figurantes, aqueles da fila interminável na porta da America Pictures, organizaram uma comissão para expor suas reivindicações à Coligação ou à produtora. Janaína devia recebê-los, mas indicou Varela para substituí-la. Varela chamou Júlia, e os dois ouviram o que os  garotos e as meninas tinham a dizer: queriam em primeiro lugar um sorteio entre os candidatos a uma vaga fixa, mesmo que fosse para assistente de assistente de assistente; exigiam lanches de  “qualidade”, distribuídos diariamente até as 15 horas (nesse ponto, informaram que alguns chegavam a desmaiar quando a merenda atrasava, o que sensibilizou Júlia e desnorteou Varela, mas não a ponto de liberar a pergunta: “...ei, o que a produtora tem a ver com a fome de vocês?”); a comissão também queria uma sala no interior da America, destinada a cadastrar todos os figurantes e conferir a eles uma espécie de salvo-conduto, que lhes daria o direito de usar as instalações sanitárias; por fim exigiam que os seguranças e porteiros da produtora não interferissem nas disputas internas dos figurantes; caso todos os itens fossem respeitados, prometiam ajudar no combate às ameaças de bombas e depredações. Júlia e Varela se comprometeram a levar as reivindicações até a diretoria da America e que depois dariam uma resposta, como solução imediata disseram que os lanches chegariam no prazo combinado, mas que dificilmente poderiam atender a todos os quatrocentos e trinta e cinco candidatos da fila, no máximo uns cinquenta seriam atendidos. A comissão ficou de levar os resultados da reunião a uma assembléia dos figurantes, enquanto Varela e Júlia iam dialogar com a diretores da America Pictures, isso quando eles estivessem “acessíveis”. Na saída da reunião, Varela comentou baixinho com Júlia: tô sonhando?, é pesadelo, né? Júlia respondeu: se Ortega estivesse aqui já teria esbravejado: “não dou porra de lanche nenhum pra essa geração nem-nem!”
ENQUADRAMENTO. Depois de muitos tratos e distratos, finalmente bateram o martelo: José de Alencar, o antigo Mr. X, foi escolhido como candidato “provisório” da Coligação Novas Ideias, Novos Rumos (o termo “provisório” só era conhecido por alguns chefes da produtora e da Coligação, na verdade, ninguém sabia quais seriam os resultados práticos da escolha, ainda a ser referendada nas assembleias dos partidos). Ângelo foi o escolhido para dar a notícia a José de Alencar e discutir com ele os limites e as obrigações dos dois lados. Ângelo conhecia José de Alencar e por isso foi logo fazendo a oferta, ou melhor, armando a arapuca: claro que já definimos uma verba para você e equipe, Alencar, além disso, vai ter assessoria, desde a redação dos discursos até a compra de roupas, cabeleireiro, maquiador, personal stylist como se diz hoje em dia. Em troca, Alencar comprometia-se a não se envolver em arruaças, nem participar de entrevistas sem o conhecimento da assessoria. José de Alencar teve que assinar um documento comprometendo-se a não processar a America Pictures e dando quitação prévia a todos os gastos ainda não lançados, o que não tinha nenhum valor legal, mas poderia servir de escudo contra pretensões desonestas do candidato. E a linha política?, Alencar quis saber, o que é que eu vou criticar ou defender? Ângelo pediu calma: a campanha está só começando. Alencar: quando vai ser feita a comunicação oficial? Ângelo: primeiro temos que contar ao pessoal da produtora e descobrir quem está disposto a se comprometer com a campanha, não vai ser fácil. Alencar: hoje nada é fácil e o mais difícil é descobrir um caminho que sobreviva às toneladas de críticas e acusações que vai receber. Ângelo: perfeito, este talvez seja o nó da política em nossos dias, a gente tem que pensar na antítese antes mesmo de elaborar a tese.
Diálogo entre Jarbas e Alencar: Jarbas: vamos partir do princípio de que já temos um programa, uma plataforma e vamos gravar um piloto para a TV. Por onde começar? Alencar: não há como esquecer o mal que a corrupção fez ao país. Mesmo sabendo que não é, nem de longe, nosso único gargalo político, a corrupção e seus males estão na cabeça do eleitor, o problema, Jarbas, é saber dosar. Jarbas: muitos partidos e coligações vão dizer que a corrupção foi geral, que ninguém escapou. Na verdade, estão ensaiando um perdão geral, na minha opinião o que eles querem é que os eleitores voltem a pensar no país sem a Lava Jato. Alencar: Tem razão, o caminho que pretendem seguir é esse mesmo, primeiro, a corrupção sempre existiu no país; segundo, a esmagadora maioria, senão a totalidade dos políticos, de um jeito ou de outro, têm envolvimento nas falcatruas; terceiro, a conclusão é óbvia: se todo mundo rouba, vou votar em quem rouba mas faz. Jarbas: ou então, o que é ainda pior, vou votar em que me dá alguma coisa. Te garanto que vai ter gente dizendo no ouvido do eleitor que vale mais um país falido, mas que dá de comer à sua gente, do que um país equilibrado onde seu povo passa fome. Alencar: sem contar que uma parcela da classe média cai na conversa de eleger quem fez algo a favor dos pobres, como se o capitalismo, a chamada economia de mercado, admita a caridade como função do estado. Se isso acontecer, o mais provável é que, em algum momento do futuro, sobrevenha uma crise mil vezes pior do que essa e um populismo ainda mais fortalecido e traiçoeiro.
Ortega disse a Vânia que achava perigoso continuar encontrando com ela no Beirute ou em qualquer lugar público da cidade. Informou que possuía uma kitinete perto dali, perguntou se Vânia aceitaria fazer as reuniões nesse local ou se havia algum problema. Parece que Vânia já esperava um convite desse tipo, olhou Ortega de alto a baixo só pra ver que reação ele teria, pensou um pouco e respondeu: problema nenhum, Carlinhos, é só você me dar o endereço que eu chego lá, ou prefere ir junto comigo?  À noite, em casa, abriu seu vellho pc e lá estava o e-mail de um desconhecido Amigo Urso, com o recado: “Ele já espancou uma prostituta quase até a morte, cuidado pra não ser a próxima vítima.” Quem assinava era o desenho de um urso polar com a cara de Carlos Ortega.
FADE-IN. Madrugada de sábado para domingo, a cidade parece tranquila, todos dormem, os que podem, pelo menos. Um ou outro cachorro vagabundo provoca os caseiros, que saem aos urros em defesa da sua liberdade atrás das grades. O telefone de Jarbas toca, toca, toca…, quando ele atende, identifica a voz do motorista Samuel desesperado: doutor, invadiram aqui, deram uma facada no vigilante, uma ou duas, acho que duas. O “aqui” do motorista era a produtora, Jarbas queria saber o que Samuel estava fazendo lá de madrugada, mas não perguntou, limitou-se a ouvir que a polícia já estava a caminho, a ambulância também. Podia ouvir o alarme, que ninguém sabia como desativar. Enquanto se vestia, Jarbas perguntou a Samuel: além da ambulância e da polícia, você ligou pra mais alguém? Samuel respondeu: liguei pro Olavo, mas ele achou que era sacanagem, tipo trote, e me mandou à merda, desculpe o palavrão, Dr. Jarbas. Tô indo pra aí, disse Jarbas.
Samuel e o vigilante Barreto não eram funcionários da America Pictures, trabalhavam para uma terceirizada. Quando Jarbas chegou, o vigilante já havia recebido os primeiros socorros e estava sendo transferido para um hospital. Samuel nada sofreu, quando percebeu o perigo, escondeu-se debaixo da van e ninguém o encontrou. O bando que feriu Barreto e invadiu a produtora aparentemente não tinha um objetivo específico: arrombaram a porta do prédio, abriram armários, roubaram os computadores, o dinheiro do caixa, destinado a miudezas, destruíram as câmeras, reviraram as gavetas e depois assaltaram a cozinha. Havia as câmeras, é claro, muito “úteis” para identificar o grupo, todos do mesmo tamanho, com a mesma roupa, máscaras iguais, pareciam uns ninjas. Fugiram  assim que ouviram as sirenes dos carros da polícia, carregando o que conseguiram roubar em sacolas de supermercado. Ninguém soube dizer se tinha um carro ali perto esperando o grupo ou se fugiram a pé, cada um para um lado.  
FADE-OUT. Na segunda-feira logo após a invasão, as principais medidas já estavam encaminhadas. A mais importante era uma sondagem aos figurantes para que eles fizessem um plantão à noite e nos fins de semana, nada ostensivo, muito menos para enfrentar possíveis agressores, o que a produtora queria era montar um sistema eficiente de alarme, que daria início a uma resposta rápida, inesperada. Os figurantes mantinham contatos com setores da sociedade que não estavam acessíveis aos  profissionais da America nem aos políticos da Coligação. Talvez por eles surgisse alguma explicação para os dois ataques à produtora, por que visavam à Coligação Novas Ideias, Novos Rumos mais do que as outras?
Varela e Júlia foram designados para negociar com a tal comissão dos figurantes. Resumiram em poucas palavras o que seria o plantão, como seria acionado o alarme, pediram um estudo conjunto para definir o número de figurantes necessários, os equipamentos e outros detalhes. Ninguém da comissão respondeu. Por alguns minutos criou-se um silêncio constrangedor, só quebrado quando uma menina, de olhos pretos irrequietos, pediu a palavra, apresentou-se como Rebeca (“não me chamem de Beca, pelo amor de Deus), disse que achou a proposta da America interessante, mas precisava consultar seus companheiros na fila. Como era de praxe, fizeram uma assembleia para decidir. No fim do dia, Rebeca, dois garotos e uma menina comunicaram a resposta: o Movimento dos Figurantes Independentes não participa da política burguesa, mas como a America Pictures tem sido solidária, oferecendo o lanche diário, enquanto as outras coligações nunca lhes deram nada, “a resposta é sim, vamos apoiar quem nos deu alguma coisa”. Só ficou faltando combinar os detalhes, Varela ia conversar com Jarbas e Janaína, mais tarde entrava em contato. Depois que a reunião terminou, Júlia disse a Varela: tá vendo, é sempre o interesse pessoal que fala mais alto. Varela foi pragmático: o que você queria, Ju?, essa garotada tem é fome. E você acha que o povo tem o quê?, Júlia foi ainda mais pragmática, nunca se esqueça que uma fome puxa outra, seu Varela.
TRAVELLING. Quanto maior a força, maior a segurança. Muros, tapumes, paredes, amanheceram com esta  frase em centenas de cartazes, assinados pela Coligação Força Maior e tendo como ilustração o desenho da mão de um homem, prestes a retirar o pino de uma granada. Ortega comentou com um vizinho, mais para ver a sua reação: daqui pra frente vai ser assim, guerra declarada. O vizinho, funcionário de uma estatal, não teve dúvidas: tava na hora, tava mais do que na hora, isso aqui tá virando bagunca, Carlos. Ortega pensou em argumentar contra a radicalização e suas consequências, mas achou melhor não esticar a conversa: não vai me levar a nada, vou acabar brigando com esse babaca.
Para Ângelo, os radicais estavam colocando os adversários contra a parede. Em conversa com Jarbas e Janaína falou com todas as letras: estamos perdendo o bonde, nossa capacidade de reação já está limitada. Essa Força Maior parte do princípio de que o povo quer sangue, disse Janaína, será que é verdade?, será que a maioria chegou no limite? A realidade está novamente deixando a ficção sem palavras, Ângelo completou.
O porta-voz da Coligação Força Maior convocou a imprensa e concedeu uma entrevista coletiva onde só ele falou. Vestido à moda militar,  afirmou literalmente que “a Força não chuta cachorro morto”, em seguida, negou qualquer participação em atentados e outras ações recentes. O comentário gerou revoltas e promessas de vingança entre os políticos e parte da população. Os jornalistas queriam saber detalhes sobre a atividade da Força, seu programa, o que eles queriam dizer com aquele cartaz que distribuíram em todo o país, aquele com a ameaçadora granada prestes a ser detonada. Nenhuma resposta, só um ar de superioridade, até que alguém perguntou o nome do porta-voz, isso ele disse: pode me chamar de Golias, tá bom assim?
Ortega conhecia esse Golias de vista. Frequentador do Trianon, para muitos era policial, ou informante, um cara da pesada com seus dois metros de altura e cento e trinta e tantos quilos. No início, Ortega achou que o vídeo era brincadeira, uma chamada para algum programa de humor na TV, depois é que viu o logotipo da Força Maior na farda de Golias. Carlos ligou para uns amigos, ninguém sabia de nada sobre a produtora que gravara o vídeo, alguns não sabiam nem que força era essa de que Ortega falava. A saída foi enviar uma mensagem para a “amiga” e perguntar se ela tava a fim de um frango a passarinho no restaurante “Kiti” depois do trabalho. S ou N?
O candidato a candidato José de Alencar e o marqueteiro Jarbas Oliveira trabalharam juntos na elaboração de um pronunciamento sobre o alvoroço que se criou a partir das palavras de Golias. Queriam aproveitar o momento para atacar a arrogância da Coligação Força Maior e sua atitude nada amistosa. A dúvida inicial era se Alencar ou outro político deveria falar em nome da Novas Ideias. Jarbas achava melhor não personalizar o vídeo. Deviam chamar Kléber e Valentino, que talvez encontrassem uma saída melhor do que o texto rolando na tela e um locutor em off lendo o que já estava escrito. Zé de Alencar queria que o identificassem como pré-candidato, achava que o vídeo era uma ótima oportunidade para lançá-lo e a partir daí medir a reação interna e externamente. Com a ajuda de Valentino e Kléber, Jarbas acabou convencendo Alencar a aparecer somente no final do vídeo, mas, em compensação, Alencar seria o locutor do texto. Quanto ao conteúdo, nova divergência surgiu, dessa vez com Janaína e Ângelo. Jarbas e Zé de Alencar achavam que a Coligação Novas Ideias não devia vestir a carapuça, o melhor seria fazer uma crítica à atitude beligerante da Força Maior, além de reafirmar  o compromisso com a democracia. Por outro lado, Jana e Ângelo           acreditavam que Golias dera um recado muito direto, ofendendo a Novas Ideias com aquela frase “a Força Maior não chuta cachorro morto”, as pessoas sabiam quem ele procurou atingir, por isso deviam reagir à altura, sem medo. Janaína rabiscou um tema, que afinal foi o vencedor: “Quem tem medo da verdade se esconde atrás da força bruta.”
Valentino perguntou a Mara se essa guerra de partidos e coligações não ia ficar com cara de bate-boca entre comadres. Ninguém está lembrando que os políticos estão entre aqueles que a população mais desconfia. Mara comenta que todos odeiam os políticos, suas roubalheiras e trapaças, mas não se vive sem eles. Vamos ter que engolir sapos para sempre?, Valentino se enfurece. Mara corrige: não foi isso que eu quis dizer, só se fala em escolher candidatos honestos, isso não é o bastante, mas podemos começar por aí? Ou o certo é escutar primeiro o que o cara diz e defende? Na política, a mentira e a enganação sempre fizeram parte do jogo, Valentino acrescenta, por isso eu acho essa coisa da verdade muito forte, mas até o momento em que a primeira pedra acerta o alvo, entendeu? Mara responde: entendi, também já tinha pensado nisso, a primeira pedra pode atingir o Alencar, por exemplo, daí vai tudo por água abaixo, concordo contigo, Valente. O câmera, ou diretor de fotografia, como Olavo se autointitulava, balançou a cabeça e disse: quem nunca tiver pegado que atire a primeira pedra. Mara arregalou os olhos: perfeito, muito boa… Depois sorriu, para Olavo e também para Valentino.
Ramiro queria saber de Sueli que posição Ortega ocupava na America Pictures, se ele era mesmo um dos chefes da produtora. Sueli respondeu que houve um atrito e que Ortega sumiu, parece que tirou férias, por que, amor? Nada, disse Ramiro, de vez em quando ele aparece ou liga, não sei o que está querendo, ele já se aproximou de você? Sueli disse que não, que não se lembrava, tem gente que diz que ele dá em cima da Vânia, aquela menina que era recepcionista e virou secretária executiva, parece que alguém viu os dois entrando num apartamento, mas não sei se é verdade, tem muita fofoca nesse meio. Ah, tá, respondeu Ramiro, ainda bem que não se metem com você, não é? Sueli sorriu: comigo não precisa inventar nada, todo mundo já sabe que eu fui garota de programa e ninguém tem nada com isso. Ramiro abraçou Sueli: adoro esse teu jeito de ir falando o que pensa, amo você.
O candidato a candidato José de Alencar pergunta a Jarbas se ele deve aceitar o convite que recebeu para participar de um debate na TV, vai logo avisando que vai haver representantes de outras coligações, inclusive a Força Maior. Jarbas fica em dúvida, resolve pedir a opinião de Ângelo, Janaína, Júlia e Ortega. Alencar se surpreende: Ortega???, esqueceu que ele está de férias? Jarbas diz que vai ligar, ou melhor, vai pedir para Vânia ou Maristela ligar e perguntar o que Ortega acha, afinal de contas ele ainda trabalha na America Pictures que, por sua vez, é responsável pela campanha da Coligação.
PAN. Apres-sado, Janaína pensa em como é estranho separar os dois “esses” quando o adjetivo chega pela metade no final da frase, depois, ou quase ao mesmo tempo, repetiu olhando o teto, podia ter ficado umas duas horas mais, mesmo assim foi ótimo, sempre é.   Ângelo também ficou na dúvida sobre a participação de Alencar no debate, pra ele não ia dar tempo de discutir internamente os pontos-chaves do programa da Novas Ideias, mas se a maioria achar que vale a pena aproveitar a oportunidade, Ângelo não vai ser contra. Janaína votou a favor: vai parecer covardia, omissão, qualquer coisa dessas se a gente não for. Vânia mandou uma mensagem para Ortega, que ao invés de responder perguntou o que ela achava. Acho que é melhor você dar uma passada aqui, Carlos, e conversar pessoalmente, é sempre bom marcar presença, ainda mais agora que estão te valorizando. Essa menina vale ouro, Ortega pensou, enquanto digitava um OK, seguido pelo emoticon de um beijo.
Na reunião para preparar o debate, a primeira dúvida que surgiu foi levantada pelo próprio Alencar: até que ponto o candidato tem que entender de economia, por exemplo?, eu sei que não é necessário ser um especialista, mas hoje é difícil discutir política sem entrar no debate econômico. Jarbas e Ângelo pediram a Janaína um resumo sobre os pontos essenciais que deveriam ser discutidos com o candidato. Janaína revelou que já estava pensando nisso há algum tempo e que tinha escrito algumas conclusões, na verdade, uma síntese dos caminhos que devemos seguir ou rejeitar. Janaína começou com um exemplo: todo mundo sabe que precisamos salvar o Estado brasileiro da verdadeira inadimplência em que ele caiu. Muito bem, aí pensamos que é preciso cortar os gastos, fazer a reforma da previdência, a reforma trabalhista, enquanto isso o desemprego aumenta. Muitos são a favor do sacrifício, porque sentem que não há outro jeito de endireitar o estrago que fizeram no País, mas também muitos são contra, esses que são contra usam argumentos como: enquanto um trabalhador ou um funcionário tem que viver sem aumento, ganhando o mínimo, um deputado chega a receber mais de cem mil reais por mês, idem para um desembargador dos tribunais de justiça. Júlia perguntou como seria possível resolver um impasse desse tamanho. Janaína disse que esta é outra questão chave: é preciso que os três poderes passem a atuar como corresponsáveis pelos destinos do País. Faz tempo que existe um limite legal, ninguém pode receber mais do que o presidente, mas aí entram as diversas safadezas para burlar a lei, sempre envolvendo o Legislativo, que “legaliza” as vantagens, e o Judiciário que garante o pagamento. Ângelo complementou: e, nesse caso, o Executivo, que devia denunciar, finge que não é com ele, tem mais: diz que vai cortar cargos comissionados, que são os que mais recebem, e nem isso consegue fazer. Entendi, disse José de Alencar, é um ótimo início de discussão, se todos são iguais perante a lei, os que estão lá em cima, fazendo e julgando as leis, também têm que vestir a carapuça, só que eles não aceitam, essa é a verdade. Jarbas concorda com Alencar e diz que, na sua opinião, é a fraqueza da democracia que permite aberrações como essa dos privilegiados e a história dos direitos adquiridos. Janaína completa: os eleitores só têm força na hora do voto, depois nem os eleitores se interessam pelo que está acontecendo e fica tudo na mesma. Até que apareça uma bomba do tamanho dessa crise, disse Ortega, entrando na discussão, aí, quando milhões perdem o emprego, quando ficam sem dinheiro até pro supermercado, nessa hora querem uma solução da noite pro dia. Todos concordaram, mas a questão, disse Alencar, é que não podemos, nem de longe, colocar a democracia em xeque, vão entender tudo errado. Perfeito, disse Ângelo, só aqui podemos argumentar o quanto a democracia por aqui acabou virando um tabu, uma formalidade inatacável e com isso ela mesma se enfraquece cada vez mais. Ortega diz: comentaram que está pra sair uma nova pesquisa, se for verdade o que  disseram, a oligarquia populista vai continuar mandando e desmandando no país, e eles vêm com todo aparato de sindicalistas, sem-terra, sem-teto, sem-vergonha… E vocês nem imaginam como está crescendo a direita pró-militares. Todos ficaram um tempo em silêncio, Janaína foi a última a falar na reunião: o medo que eu tenho é que as eleições acabem polarizadas em torno de uma só escolha, quem roubou mais versus quem roubou menos, como dois times disputando um jogo de futebol, uma decisão de campeonato.
Não perguntaram nada a Ortega sobre seu futuro na produtora, pra todos os efeitos ele continuava de férias. Sua atitude de atender o chamado para a reunião foi muito bem vista, como previu a amiga (ou bem mais que amiga, nessa altura do campeonato?)
LONG SHOT. Rebeca disse a Júlia que era bom dar uma vasculhada no prédio da America Pictures. Júlia quis saber por quê, Rebeca disse que um dos eternos candidatos a figurante ouviu falar nas ruas que alguém colocou uma escuta na sala de reuniões da produtora, mas podia haver mais de uma, talvez até com câmeras. Júlia contou a Varela, que avisou à empresa terceirizada, responsável pela segurança da produtora. Fizeram uma varredura, mas não encontraram nada. No dia seguinte, Varela recebeu uma mensagem no celular: Veja amanhã nos classificados de imóveis. Varela viu, não só ele, mas todos os outros da América Pictures e da Coligação, um trecho longo da conversa entre Jarbas, Janaína, Alencar, Ângelo, Júlia e Ortega, todos identificados por duas letras: Jarbas era Jr, Janaína-Ja, Alencar-Al, Ângelo-An, Júlia-Ju e Ortega-Or. O que estava escrito era a degravação exata da fala de cada um na reunião. A America e a Coligação fizeram de tudo para descobrir quem autorizara a publicação do classificado, mas as pistas não deram em nada: o portador do texto e do dinheiro para pagar a publicação no jornal era um morador de rua, que recebeu a encomenda de um mascarado azul, que dizia ser irmão mais novo do Hulk, aquele herói verde furioso, o cara tava doidão. Para Jarbas, o problema não seria a divulgação do que cada um disse na reunião, mas a demonstração de fraqueza que a produtora e a Coligação Novas Ideias transmitiriam aos eleitores e ao meio político em geral. O estrago já estava feito, a partir do momento em que teriam que se voltar para o tema da segurança e, disse Jarbas a José de Alencar, todo mundo sabe que é impossível falar de segurança sem lembrar da Força Maior. Alencar pensou um pouco, concordou com Jarbas e acrescentou: estamos em xeque, mas ainda não é xeque-mate, vamos ter que contra-atacar. Ligaram para Ângelo, depois para Janaína e os demais integrantes do grupo do Whatsapp. A melhor sugestão, escolhida por unanimidade, partiu da criação e chegou por intermédio de Carlos Ortega: o melhor é não publicar nenhum artigo, nada de entrar no jogo deles, vamos pegar aquela foto da fachada da produtora semidestruída e colocar uma legenda, terminando com a frase da Jana, “Espionagem, violência: quem tem medo da verdade se esconde atrás da força”.
O ator Roger Matiolli, depois de um longo tempo de ausência, apareceu na sala de Vânia, na verdade, sala era um exagero, náo passava de um pequeno espaço, inventado com a ajuda de armários e divisórias. Pra mim isso aqui é mais que suficiente, disse ela ao ator, por onde anda Stephanie? Nem Roger sabia ao certo, parece que desde a invasão do quarto do hotel os dois andavam arredios. Stephanie é assim mesmo, disse Roger, sempre imprevisível, se ela sentir que está perdendo espaço, pode saber que logo vai descobrir uma forma escandalosa de voltar ao noticiário. Vânia respondeu que ficou sabendo da história do assédio, como era uma garota sem papas na língua, foi logo perguntando se era verdade o que saiu na TV e nos jornais sensacionalistas, parece que até os tablóides ingleses publicaram umas fotos. Foi armação, Vânia, disse Roger, imagina que uma pessoa chama outra para o seu quarto, os dois se abraçam, se beijam, a coisa vai ficando cada vez mais quente, e quando está quase tudo pronto para o sexo explícito, eis que ela começa a gritar, me larga, sai de cima de mim, e a pedir SOCORRO! Sem mais nem menos, de uma hora pra outra… Você saiu de cima da Fanie, Roger? Eu não sou de ferro, tenho que confessar, não saí nada, mas também não fiz o que estão dizendo que eu fiz, e o que é que estão dizendo, Roger? Você sabe, Vânia, me acusaram de estupro, até me levaram preso pra delegacia, um vexame, só que eu não ligo, não tive culpa de nada, podem me acusar à vontade, eu sou homem, só isso. Vânia pensou um pouco, esteve a ponto de dizer, você é homem, mas não tem o direito de ficar em cima de uma mulher quando ela pediu pra você sair, mas Vânia não disse nada, achou aquilo com cara de politicamente correto, coisa que ela odiava, além do mais, Vânia não conhecia todos os detalhes, Stephanie foi solidária e ficou tudo por isso mesmo, sem acusação formal, sem processo, mas com uma certa mágoa no coração de Roger e um vazio existencial na vida de Stephanie Lammar, mais um, pobre Fanie, pensou a secretária, amiga de Carlos e de muitos que admiravam seu jeito sincero e espontâneo.
ALTERNATIVAS. O debate no rádio e na TV começou com entrevistas dos prováveis candidatos ou lideranças dos partidos e coligações. A mesma pergunta deveria ser feita a cada um deles e o tempo para resposta era idêntico. Havia uma certa má vontade no ar contra a política e os políticos em geral, nada que pudesse ser contestado, apenas sentido. A introdução, por exemplo, começou abordando o distanciamento entre os líderes políticos e os eleitores, esta “evidente separação” poderia influir nos resultados e na própria legitimidade das eleições em seus diversos níveis? Foi essa a primeira pergunta.
A maioria dos candidatos procurou desconversar, minimizando esse afastamento, colocando na base de todo o processo o momento de crise que o país, os estados e municípios enfrentavam. Quando chegou a vez de José de Alencar, a resposta foi outra e até certo ponto surpreendente:
“Acho ótimo que a população em geral, não só os eleitores, desconfiem e cobrem corência da chamada classe política, mas não me surpreende. Faz muito tempo que a democracia por aqui consiste em dizer o que a maioria quer ouvir. Se a esmagadora maioria quer acabar com a violência, o que é muito natural, espalham centenas, milhares de cartazes com a mão de um homem prestes a tirar o pino de uma granada. Não é preciso pensar, o que muitos querem é o uso da força pra acabar com a violência, mas desde quando esse é um método eficiente? Quem fez o cartaz não quer acabar com a violência, quer ganhar a simpatia do eleitorado, infelizmente, essa é a verdade que desejam ocultar. Tratam a corrupção como algo terrível, terrível novidade que nos devora há séculos, desde o País colônia. Fingem que a corrupção será drasticamente punida, o que todos sabemos que não passa de uma mentira grosseira, basta ver quantos corruptos do passado foram punidos e permanecem presos. Acima de tudo, o que precisamos é acabar com a hipocrisia, com a mentira persistente, mas dentro da democracia, nunca através de regimes ditatoriais. Esse é o desafio, criar mecanismos que fiscalizem todos os poderes e instituições, sempre dentro da lei, respeitando a democracia. É difícil, mas será impossível? Outros países já mostraram que não.”
Nesse ponto, Alencar foi interrompido pela mesa de mediadores e instalou-se um clima de gritaria e protestos, mais tarde atribuídos a militantes da Força Maior, que se sentiu diretamente ofendida com a intervenção do representante da Novas Ideias. Alencar achou que havia atingido o fígado dos adeptos de soluções radicais, mas havia um problema, ou dois: primeiro, o conteúdo do seu discurso não chegou a ser discutido pela Coligação; segundo, não dava pra imaginar qual seria a reação dos radicais. Tudo isso teria que ser resolvido no curto prazo, antes que uma nova provocação os pegasse de surpresa.
Foi incrível, disse Janaína, ver a cara dos coleguinhas na hora que Alencar soltou o verbo, ninguém esperava, nem nós aqui na America ou na Coligação, hein, Ângelo, o que você achou? Fabuloso, disse Ângelo, provocou com classe, mas foi direto ao ponto, cutucou o tal nervo do pré-molar, por falar nisso, Sueli e Ramiro, por onde andam? Júlia chegou correndo para dizer a Ângelo e a Janaína que os figurantes estavam se armando para reagir com violência às ameaças da Força Maior, dizem que não vão baixar a cabeça e levar porrada calados, outra coisa é que eles se consideram parte da America Pictures / Novas Ideias, já estão até fazendo umas camisetas, o que é que a gente faz com essa turma? Pelo menos, já conquistamos uns aliados, disse Ângelo. Janaína riu, disse que gostava dos garotos, do idealismo que só aparece de verdade na idade deles. Júlia contou que havia muitas discussões internas, discussões intermináveis, e Rebeca, a porta-voz, sempre trazia os resultados e as reivindicações. Ângelo quis saber se todos acreditavam na possibilidade de conseguir uma vaga de figurante, como aconteceu com Henrique. Parece que sim, Júlia disse, de qualquer forma eles não têm outra alternativa. É triste, mas não deixa de ser intrigante, Ângelo respondeu, pode ser um bom tema para um documentário ou um curta mesmo, minha vida na fila, Janaína disse. Podemos falar com Valentino ou Kléber, Júlia sugeriu. Ângelo concordou: tá certo, quero ver quem vai acreditar que a história é baseada em fatos reais, só precisamos tomar cuidado pra não abrir demais a produtora aos figurantes, pelo menos por enquanto. Janaína alertou: e vamos tentar convencê-los que não é negócio apelar pra violência e usar as mesmas armas do inimigo.
TRUCAGEM. Stephanie Lammar ensaiava para disputar o papel de atriz principal na peça Criado Mudo, uma comédia ambientada no futuro, mas com a intenção de criticar e até mesmo ridicularizar a sociedade e o mundo político em nossos dias. O título da peça não se referia às mesinhas de cabeceira que se usam ao lado da cama, até porque no “futuro” as pessoas dormem em pé, presas por eletromagnetismo a estruturas verticais, que em nada se parecem com as nossas tradicionais camas. O ator Roger Matiolli, que nunca perdia uma oportunidade para provocar Stephanie, mandou uma mensagem perguntando se esse criado mudo da peça era o Iago dos velhos tempos. Stephanie pensou em não responder, mas ficou ruminando, ruminando e dias depois enviou a pergunta: “Tá com saudades da delegacia? Olha que eu posso mudar meu depoimento, seu canalha”. Roger respondeu com um emoticon obsceno, a atriz mandou o desenho de um par de algemas e ficou por isso mesmo. Quanto a Iago, não era mais escravo, muito menos  criado mudo de Stephanie, tinha novas amizades, entre elas, Mara, Henrique, Júlia e alguns figurantes. Morava no quarto de pensão que Roger alugou para ele se libertar da dependência de Stephanie, Iago ainda não estava empregado, mas sempre aparecia um ou outro serviço eventual, os famosos bicos. Ao fazer amizade com os figurantes, Iago atraiu a curiosidade de Rebeca, que logo afeiçoou-se a ele. O sentimento mais forte não era, pelo menos no início, a atração física. Iago enviava aos que conviviam com ele a imagem de alguém sem nenhuma defesa, um desprotegido, que a qualquer momento poderia cair em armadilhas, até mesmo as mais infantis. Entre os bicos que Iago realizava para sobreviver estava o de mensageiro. Arranjaram para ele uma bicicleta velha e um  mapa da cidade, em pouco tempo dava conta de todas as tarefas, menos aquelas que Rebeca vetava, quando desconfiava que estavam tentando usar Iago como avião ou mula. Rebeca, no entanto, não mantinha com Iago um relacionamento maternal, longe disso. Por outro lado, Iago entusiasmava-se com a liderança da menina, uma liderança que em nada diminuía sua feminilidade. Claro que Rebeca atraía muitos admiradores entre os candidatos a figurantes da America Pictures, mas como era reconhecida por todos como a líder, a melhor para o “cargo”, nunca teve problemas com abusos ou assédios de qualquer natureza. Um dia, Iago atendeu ao pedido de Helena, uma das figurantes, que não tinha como voltar para casa naquela noite, devido à greve geral dos transportes. Lá se foram os dois de bicicleta rumo ao quarto de pensão onde Iago morava. No dia seguinte, Helena não apareceu pela manhã e Iago chegou tarde. Rebeca perguntou a ele: quantas camas tem no seu quarto? Iago respondeu: uma só, por que? Rebeca sentiu um aperto tão forte no peito que teve que fazer um esforço enorme para se controlar e mudar rapidamente de assunto, antes que tivesse que lidar, na frente de todos, com sentimentos ocultos até para ela mesma. No final do dia, Iago disse a Rebeca: só tem uma cama de solteiro, mas eu dormi no chão, em cima de um cobertor, viu?
Sabe o que estão falando a nosso respeito, não sabe?, Vânia perguntou assim que Ortega abriu a porta da kitinete. Ortega disse que não, Vânia entrou, fechou a porta e respondeu: dizem que somos amantes, Carlinhos, pode? E os dois caíram na gargalhada.
PRETO e BRANCO ou SÉPIA. Lembra do Estrangeiro, do Camus? Lembra que o motivo da condenação não foi por ter disparado e matado o sujeito, mas por não ter sentido nada ao saber da morte da mãe?, Ângelo perguntou a Janaína, que respondeu: lembro, claro, a condenação não foi nem por não ter sentido, mas por não ter demonstrado seus sentimentos pela morte da mãe, é o cúmulo da hipocrisia, se ele estivesse triste, em prantos, provavelmente jamais teria sido condenado, não é? Ângelo concordou: hoje vivemos um momento parecido com esse, se alguém não demonstrar estupor, revolta, indignação com a situação do país, vai ser condenado da mesma forma. Verdade, disse Janaína, vai ser uma condenação sumária, deixa ver se eu entendo por que você lembrou do livro, é porque hoje temos que tomar cuidado até com o pensamento sincero, verdadeiro? Quem quiser aprofundar a discussão deve primeiro deixar claro que o chefe de todos os demônios é a corrupção, é ela quem deve ser exterminada para sempre, foi por isso? Sim, foi, disse Ângelo, só não podemos esquecer que para  uma boa parte do eleitorado, talvez a maioria,  o que interessa de verdade são os programas sociais, essas pessoas vivem numa carência muito grande. Janaína balançou a cabeça e comentou: estragos do populismo, não se pode dizer que migalhas não acabam com a fome, se as pessoas só têm mesmo essas migalhas pra pôr na mesa. Vale leite, vale transporte, vale refeição, vale alimentação, bolsa família, minha casa-minha vida, creche, escola, faculdade, o estado falido e uma pobreza que só aumenta, mas vai falar a sério sobre isso.
Domingo, dez e meia da manhã, Golias acordou de ressaca e, claro, de péssimo humor. Uma discussão no apartamento vizinho detonou aquela vontade de estrangular uma dúzia de safados antes do café. Depois, encostou o ouvido na porta e sacou sua Smith 457 assim que ouviu o vizinho dizer: aqui não mora nenhum Golias, não conheço esse tal de Golias, por isso não vou assinar porra nenhuma. O outro tinha uma voz abafada, de velho fumante, quase não deu para entender que ele disse algo como: aqui do lado, qual  o nome do vizinho? O que devia ser o vizinho estalou a língua no céu da boca, o barulho era esse, e disse: bate aí e pergunta, acha que eu sou o síndico do prédio? O sujeito bateu mesmo, Golias apertou sua pistola, nenhum movimento, completo silêncio, o da voz de velho fumante bateu de novo, até aí Golias estava se aguentando, o diabo foi quando ouviu o velho dizer: pode esperar que eu volto, seu filho da puta, aí não deu mais, Golias abriu a porta, agarrou o cara pelo pescoço e puxou-o para dentro do apartamento, ameaçou o vizinho com a pistola e bateu a porta com extrema violência. O velho era um oficial de justiça, pelo menos disse que era. Golias enfiou o cano da pistola na boca do cara, encostou a boca no ouvido dele e falou baixinho: desde quando oficial de justiça trabalha aos domingos, palhaço? Agora você vai morrer, e apertou o gatilho. A pistola não estava engatilhada e tudo  que ela fez foi um estalinho de nada, mas o bastante para o oficial se mijar todo, pedir pelo amor de Deus que Golias não o matasse, ele estava apenas adiantando o serviço da segunda-feira, e as pessoas não eram cidadãos bem informados como o senhor Golias ali presente, pediu perdão mil vezes, lavou o chão mijado, enxugou a louça da cozinha, perguntou se Golias queria mais alguma coisa, entregou a intimação para Golias rasgar e jurou que jamais voltaria àquele prédio.
Vânia imprimiu o e-mail do Amigo Urso e mostrou a Ortega, se era pra contar tudo, por que deixar um veneno desses de lado, fermentando, para uma hora vir à tona? Ao contrário do que Vânia esperava, Ortega não se surpreendeu, apenas disse: você sabe que é intriga, não sabe? Isso é que me importa. Vânia perguntou quem poderia estar por trás desse tipo de injúria, Carlos achava que devia ter partido de alguém que estava interessado nela, Vânia, e pediu que a amiga passasse em revista pessoas que ela conhecia, homens e mulheres, ele ia fazer a mesma coisa. Vânia surpreendeu Ortega: por que inventaram uma história dessas?, acusarem logo você, Carlinhos, que sempre foi tão carinhoso, disse e o abraçou, encostando o rosto em seu peito. Ortega apertou o corpo de Vânia contra o seu, beijou os cabelos da jovem, pensou um pouco e disse: prepare-se, essa é a pior parte da política, o vale-tudo, nunca vou me acostumar. Carlos Ortega perguntou se poderia levar um técnico em hacker e spy para examinar o PC onde Mara recebeu o e-mail. Mara disse que tudo bem, era uma questão de combinar, porque sua mãe talvez achasse um pouco estranho. Me fala o dia e a hora que eu dou um jeito, Carlinhos, disse ela.
Sueli convidou Mara pra almoçar, as ex-estagiárias, que andavam sempre juntas, agora fazia um tempo que não se encontravam fora da America Pictures. Mara aceitou o convite e lá foram as duas para a casa de Ramiro, agora também a casa de Sueli. Depois das conversas formais, como vai sua família?, e você, o que me conta de novidade?, essas coisas que as pessoas perguntam já sabendo as respostas, Mara disse que recebeu uma cantada explícita de Olavo, o diretor de fotografia, que muitos chamavam de cinegrafista, o que o deixava puto da vida. Sueli riu e perguntou se Mara aceitou a cantada, não que ela tivesse alguma coisa com a vida de Mara, mas já tava na hora, né? Mara ficou um pouco sem graça e desconversou: Ramiro vem almoçar em casa? Sueli disse que não, ainda mais hoje que ele vai apresentar um projeto na secretaria do meio ambiente, é um trabalho em grupo. Ah, tá, disse Mara, e você, Su, o que está achando da confusão na America? Sueli respondeu que ela e Mara não tinham do que reclamar, as duas nem estavam esperando a contratação tão rápida, não é grande coisa, Mara, mas a gente tá só começando. Mara disse que sim, tem razão, hoje não tá fácil, tem gente da nossa turma na faculdade que até agora não conseguiu nada, nem estágio não-remunerado. Sueli disse que sabia de alguns que até desistiram de procurar trabalho na área de jornalismo, propaganda, produção, RP, estão fazendo uns bicos e olhe lá. Eu só tenho medo, disse Mara, é desse clima de intriga da política e também de queimarem a gente como filiadas à Coligação. Quanto a isso, não se preocupe, disse Sueli, é uma porta que se abre e não vai fechar as outras. Mas agora fala a verdade, você aceitou ou não a cantada do cinegrafista? Vai posar nua pra ele. Mara riu e disse: nem pensar, tá maluca, Su?, Olavo é um cara legal, mas é bem taradinho, fica olhando pra bunda de tudo quanto é guria. Ah, repondeu Sueli, você conhece algum homem que não olhe? Tá querendo um santinho?, fica com o Iago, ouvi dizer que ele também tá a fim de você, destruidora de corações. Mara perguntou: aquele Iago da Fani? Esse mesmo, parece que ela não manda mais nele, Sueli respondeu, Roger proclamou a abolição da escravatura. Tá certo, mas é muito novinho, Su, e eu não quero me meter em confusão. Você que sabe, disse Sueli chorando, mas era por descascar e picar cebolas. Quando enxugou as lágrimas, disse brincando: escolha bem, amiga, mas não demore muito, o tempo passa rápido e você já tá com dezenove completinhos. Mara sorriu, mas um sorriso triste, não havia jeito de falar o que sentia.
DIÁLOGOS. Você está num debate, nem precisa ser um debate na TV, imagine que você está num boteco, conversando com amigos, um deles vem com uma teoria maluca, vamos dizer que seja algo como: “a única solução para o país é a pena de morte”. Você argumenta, tenta demonstrar que a pena de morte, nos países em que ela é adotada, não resolve coisa alguma, em alguns casos até aumenta a criminalidade. Aí o cara diz que não é pena de morte contra criminosos comuns, esses vão pra cadeia mesmo, o que ele quer é pena de morte, em julgamento sumário, para essa corja de políticos e funcionários de estatais corruptos. Como é que você vai sair dessa, Alencar? Essa é fácil, diz Alencar, se for esse o desejo do povo, tudo bem, só que vai ser preciso discutir amplamente na sociedade antes de votar e durante esse debate público muitos irão levantar a possibilidade de falsas acusações, de erros nos julgamentos. E o que vamos fazer depois de matar alguns inocentes? Jana, você acha que essa resposta esquece ou adia o  que é mais importante? E o que é mais importante? É o caminho mais difícil, mostrar que nada vai dar certo enquanto não se eliminar os furos no sistema, que permitem que a corrupção se alastre como uma epidemia. Sei que você vai dizer que sempre vai haver furos. Claro que sempre vai haver furos em qualquer sistema, Alencar, estamos no mundo real e furo é uma coisa que nós é que não podemos deixar. Ok, Jana, uma hora vamos ter que lembrar o significado original de democracia, que muitos espertos estão esquecendo. O que mais tem é advogado querendo que o foro privilegiado acabe pra voltar aos recursos intermináveis. Outro perigo é a prisão para condenados em segunda instância, outro dia ouvi um comentário: “cliente preso não paga”. Humor negro ou pragmatismo em primeiro lugar? Posso dar um pitaco? Claro, Ângelo, fala aí. Todo mundo diz que a pior das democracias é melhor do que a melhor das ditaduras, certo? O diabo é que faz algum tempo que o sistema democrático parou de evoluir para dar lugar a proteções de todo tipo, criaram uma rede de privilegiados, uma rede intocável. Agora a parte complicada, que não podemos nem reconhecer: eleições não são instrumentos para resolver essa estagnação democrática, democrática entre aspas, o que vocês acham? Eu acho que não tem outra opção, Ângelo. Eu também não vejo saída, penso como você, Janaína, se não for através de eleições como se resolvem os problemas na democracia? Alguns problemas não se resolvem, Alencar. É isso que vem enfraquecendo o regime democrático através dos anos. A tal rede de privilégios e privilegiados que você falou não tem cor política, entra governo, sai governo, e trocam-se apenas alguns nomes, alguns programas, mas a essência permanece a mesma. Jana, lembra que eu te falei sobre planejamento estratégico? Era mais ou menos nisso que eu tava pensando, fala, José. Ângelo, entendo esse planejamento estratégico como a criação de salvaguardas contra tudo isso que enfraquece e desmoraliza a democracia, mas não me ocorre nada que não envolva as pessoas, os eleitos e os indicados, os intocáveis de sempre, o que você pensa, Jana?  Se for pra ficar esperando que apareçam enfim os bonzinhos e incorruptíveis, podemos desistir agora. Não vejo outro método além de apertar a punição dos culpados e, de alguma forma, aumentar o prêmio dos honestos. Vamos ter que pensar e repensar em tudo isso. Não é sarcasmo, mas lembra daquela frase “todo povo tem o governo que merece”? Sim, lembro também da frase ao contrário “todo governo tem o povo que merece”. Essa conversa que tivemos foi muito útil para ajudar a formar a nossa consciência, mas não podemos ficar só na teoria, Ângelo. Sei disso, Alencar, a gente sabe que precisa descobrir como sugerir medidas eficientes para mudar a nossa realidade. Janaína tá querendo falar, fala Jana: acho que ainda não pensamos seriamente nos motivos que levam tanta gente a se fazer de avestruz e enfiar a cabeça na areia, será que acreditam de verdade que ninguém roubou, só os “golpistas”, e que o desgoverno que levou o país pro buraco é inocente e está sendo vítima da perseguição de um juiz maluco e desonesto?, até onde vai a força desse bloco?, como esse povo explica os bilhões roubados à Petrobras, ao FGTS, ao BNDES? Será que vão jogar a culpa na herança maldita outra vez?, será um escárnio em massa, o que você pensa, Jarbas? Penso que ver o judiciário se omitir com a sua proverbial lentidão será o sinal para voltarmos à estaca zero. Na política, o tempo corrói a memória do povo com alucinante velocidade, nesse caso as delações premiadas serão substituídas por alianças premium. Supremo trambique.
PLAY  BACK. Su, preciso falar com aquela sua amiga Mara. Passa o meu número pra ela e diz que é sobre trabalho, mas nada demais, ok? Bjsss Ro. Sueli ficou na dúvida, mas achou que devia mostrar a Mara a mensagem que recebeu de Roxane. Mara ficou surpresa, conhecia a cafetina de vista, nem lembra de ter conversado com ela, mesmo assim disse à amiga que ficou curiosa e que ia ligar pra ver o que Roxane queria. Sueli disse que tudo bem, você é que sabe, amiga, só tome cuidado com o bote da serpente, ela não é má pessoa, mas nunca se sabe.
Ortega resolveu contar a Vânia que ele mesmo era o autor da carta, aquela que acusava o próprio V.O. de ser um quinta coluna na America Pictures. Vânia ficou tão surpresa que não conseguiu dar voz à pergunta que não saía de sua cabeça: por que não me falou nada, Carlos? O diminutivo carinhoso estava desativado, por enquanto.
“Desce a Lenha” é um programa de crimes, variedades e fofocas na rádio AM mais ouvida da cidade. Quem comanda é Laerte Alvarez, um escroque, chantagista, com vários processos nas costas, inclusive tentativa de homicídio, além de estelionato, injúria e difamação. Em resumo,  L.A. é o tipo de inimigo que ninguém gosta de enfrentar, ele sabe disso e abusa de seus poderes intimidatórios. Chegou a seus ouvidos uma denúncia anônima contra Golias, que já havia despertado a curiosidade de Laerte desde a sua entrevista na TV, lançando a Força Maior. A voz cavernosa no telefone informou que um oficial de justiça foi agredido, humilhado e quase perdeu a vida no apartamento do brutamontes conhecido como Golias, se Laerte tivesse culhões faria a denúncia no “Desce a Lenha”. Era o que L.A. esperava, um desafio e algumas informações pra encostar esse Golias na parede. Mandou seu auxiliar Marzagão, vestido de carteiro, fazer uma visita ao edifício em que Golias morava. Marzagão conversou com o síndico, com o porteiro, com vizinhos… Ninguém sabia quem era esse Golias, todas as pessoas que Marzagão ouviu juraram que o domingo foi tranquilo, não houve brigas nem baixarias. Marzagão pegou na portaria uma conta de luz do apartamento 514 e lá estava o nome Carlos Alberto Cordeiro e na parte de cima, escrito a lápis, Golias. O falso carteiro disse: hummm…, meteu a conta no bolso e saiu do prédio. Enquanto tomava um cafezinho, Marzagão descobriu que Golias estava devendo mais de dez mil reais no bar e restaurante Gato Preto, bem em frente ao edifício em que morava, além disso, devia também na farmácia, na padaria, devia até ao pipoqueiro da esquina. Enfim, além daquelas conhecidas “qualidades”, Carlos Alberto Cordeiro também era um caloteiro dos bons, que ninguém tinha coragem de cobrar. O Desce a Lenha vai ao ar à noite, depois das onze, e no dia seguinte pela manhã, antes das sete. Quando Laerte achou que já sabia o bastante sobre a vida criminosa de Golias, resolveu fazer um programa só para ele, com base em tudo que Marzagão havia apurado. Como era comum em casos semelhantes, Laerte Alvarez gravou entrevistas com algumas vítimas forjadas de Golias, todas com a voz modificada eletronicamente, por motivos óbvios. Comerciantes o acusavam de calotes, vizinhos apontavam inconveniências, inclusive obscenidades nos corredores do prédio, até um falso oficial de justiça foi ao ar, relatando a surra e os abusos que sofreu. Ao final das entrevistas, Laerte ameaça: nós já sabemos seu nome verdadeiro, senhor Golias, e garanto que em breve o senhor vai pagar caro por todos os crimes que vem cometendo. A lenha já está descendo no lombo do safado. O programa terminou com a pergunta, feita pelo vozeirão de Laerte Alvarez: Quem será o David capaz de enfrentar e vencer este Golias do mal? No dia seguinte, depois que a reprise do Desce a Lenha foi ao ar pela manhã, uma pequena multidão berrava na porta da emissora palavras de ordem  contra Laerte e Marzagão, agitando bandeiras com o logotipo da Coligação Força Maior. Forçaram a entrada, agrediram o porteiro e o zelador, ameaçaram colocar fogo na rádio. Os donos da emissora disseram que a polícia demorou muito a chegar, a polícia disse que só foi chamada quando o movimento já havia invadido o prédio e que atendeu prontamente com o envio da tropa de choque ao local. Laerte não apareceu, como sempre, dormiu até tarde, Marzagão se escondeu no banheiro feminino. Ninguém foi preso.
Vânia fez de tudo pra não ficar com cara de magoada com Ortega, mas parece que não conseguiu, o amigo disse: não fica magoada comigo, Vânia, eu devia ter te falado que eu mesmo escrevi a carta,  mas não queria que ninguém desconfiasse de você. Vania respondeu: acho que você não confiou em mim, pensou que eu podia contar que você era o autor da calúnia? Me acha criança demais, é isso, não é? Ficaram naquela conversinha, Vânia acusando, Ortega se desculpando, isso até que Ortega percebeu que Vânia estava com os olhos cheios d'água, foi nessa hora que não resistiu e abraçou a amiga, pediu perdão, jurou que não teve intenção de magoá-la, Ortega abraçou mais forte e beijou a amiga, Vânia disse: tudo bem, vamos esquecer, Carlinhos, por dentro pensava, merece ou não merece o troco? A verdade é que a partir daquele momento o tal “caso” entre os dois começou de fato.
Ramiro pintou o apartamento todo de branco, trocou os móveis por outros móveis brancos, comprou esculturas também brancas para colocar em nichos brancos nas paredes brancas. A mesa da sala era de laca branca, os assentos e encostos das cadeiras, transparentes. Tudo absolutamente branco, até o carpet, que dava medo de pisar. Depois de tudo pronto e finalizado com a roupa de cama e cortinas brancas, Ramiro perguntou: gostou? Sueli respondeu: sim, parece que mudamos pro paraíso. Ramiro perguntou: quer me trocar por um sueco? Sueli riu: jamais, chega de branco, você é o negro que faltava no ambiente. Mara esteve aqui te procurando, Ramiro disse, me deu vontade de perguntar o que Roxane queria, ela te contou? Sueli disse que não, não me contou, mas acho que não tem nada a ver com feiras e exposições, muito menos com programas, ela sabe que Mara não aceita de jeito nenhum, sei lá, é alguma coisa que ainda não sabemos, segredos, segredos… Então eu vou te contar que segredo é esse, amor, quando Mara esteve aqui não perguntou só de você. Sueli: ah, não? Vai dizer que… Ramiro: péra, não se precipite, Roxane não quer nada comigo, não nesse sentido que você está pensando, Mara foi direta, como sempre aliás, disse que Roxane queria saber se eu aceitaria participar de uns filmes pornô. Sueli: filha da puta, cachorra. E você, Ramiro, disse o quê? Ramiro: falei que ia pensar, conversar com você, Mara disse que Roxane garantiu que a grana é boa e nem precisa mostrar a cara. Sueli: sério, amor? Vai pensar? Não mostra a cara, só o pau, cadela essa Rochane, não conseguiu comigo, foi atrás dos seus dotes. Aliás, tô vendo que ficou animadinho, safado…Tira a roupa que eu quero ver o inacreditável, óscar de melhor ator do cinema pornô. Ramiro achava incrível o bom humor de Sueli, amava aquele jeito de se divertir com tudo na vida, em qualquer situação. Resolveu imitar, tirou a roupa e disse: e aí?, é pegar ou largar…
CONTINUIDADE. A Coligação Força Maior distribuiu um daqueles press-releases que em geral tem por objetivo negar o óbvio. Negou que tivesse patrocinado ou incentivado a invasão da rádio, contudo não disse que desaprovava. Chamou a invasão e as violências praticadas de “revolta espontânea”, motivada por acusações mentirosas e irresponsáveis contra a Força Maior. No entanto, o release deixou de identificar Carlos Alberto Cordeiro, vulgo Golias, como porta-voz da Força. Laerte convocou uma manifestação de protesto contra a violência e apoio à emissora. A partir da concentração na praça em frente à rádio, a passeata seguiria até a sede da Força Maior. Embora Laerte Alvarez fizesse questão de realçar o caráter pacífico da manifestação, muitos achavam que em algum momento haveria o confronto. Ortega ligou para a America Pictures, perguntou se queriam que ele desse uma passada na manifestação de apoio ao Desce a Lenha, quem sabe também não mandavam Olavo para gravar umas cenas. Jarbas respondeu que era uma ótima ideia, mas Ortega era muito visado, não deveria ser ele o infiltrado, vou pedir a Vânia que vá a manifestação com Olavo e Henrique. Carlos Ortega deu uma espécie de grito: VÂNIA?, ela não... é muito inexperiente. Pronto. Jarbas jogava xadrez.
Rebeca chegou à conclusão de que se ficasse esperando Iago tomar a iniciativa chegaria aos oitenta anos e nada. Por isso, resolveu convidá-lo para um chopp no fim do dia, mas se ele não gostasse de chopp podia tomar um café, um refrigerante, qualquer coisa. Ficaram até tarde conversando, conversando é o modo de dizer, Rebeca falou, falou, falou… Iago ouviu, ouviu, ouviu… Rebeca contou que já tinha roubado muito nessa vida, mas que parou porque tinha medo de se viciar e acabar virando uma ladra profissional, a maioria das coisas que Rebeca roubava ou ia para os figurantes da fila ou para esse povo que dorme debaixo das marquises. Para Iago, tava tudo bem; para Rebeca, beleza. De vez  em quando Iago dava uns palpites, fazia umas perguntas, tipo, seus pais não ligam se você chegar tarde?  Até que o dono do boteco falou que estava na hora de fechar, Rebeca se despediu de Iago com um abraço e ouviu sua voz baixinho, quase um sussurro: quer passar a noite no meu quarto e dormir na minha cama de solteiro?, se você quiser, eu posso dormir no chão. Rebeca foi direto ao ponto: deixa a bike na America e vamos de táxi.
Valentino e Kléber começaram a trabalhar no roteiro e na gravação das primeiras cenas para o documentário Minha Vida na Fila, o curta que pretendia retratar o dia a dia dos candidatos a figurantes na America Pictures. No início, filmaram alguns meninos e garotas sem identificá-los. A maioria criticou, políticos, banqueiros,  ladrões, traficantes. Para não expor demais a produtora, entrevistaram também pessoas em outras filas na cidade: filas em terminais de ônibus, filas para candidatos a vagas de trabalho, filas em caixas de bancos, filas nos portões de creches e escolas. O roteiro elaborado por Valentino e Kléber não se limitava a um documentário com depoimentos. A ideia central era relacionar as filas à esperança, tanto à esperança real, presente naquele momento, quanto à esperança ideal, em relação ao futuro, à vida das pessoas. Um roteiro difícil de se materializar, embora não impossível, na opinião dos dois diretores. Em último caso, podemos aproveitar as entrevistas e editar para um novo “Quem Tem Medo da Verdade”, disse Kléber, o primeiro e o teaser ainda estão rodando por aí. A ideia do telão itinerante, Valentino lembrou, a tal mídia móvel do Ângelo, foi uma grande sacada, vamos ter que produzir em série.
José de Alencar chegou com uma notícia preocupante ou, pior ainda, apavorante: havia uma tentativa de calar a Coligação através de atentados e ameaças, que poderiam evoluir para chantagens e até sequestro. Rebeca, a líder dos figurantes, já havia avisado que o principal motivo para que atacassem a Novas Ideias e não outros partidos e coligações era a cobiça, o olho grande, como ela dizia, na grana que a produtora e a coligação tinha mais, bem mais, que os outros. Alencar disse ainda que todos deviam se preparar para uma invasão em suas vidas privadas, em alguns casos uma verdadeira devassa, incluindo contas, saldos, propriedades não declaradas ou de origem duvidosa, transações financeiras, essas coisas. Claro que nessa hora todos se dizem tranquilos, acima de qualquer suspeita, mas não há um que não sinta lá no fundo uma dúvida, uma sombra ameaçadora, que incomoda até mesmo os mais honestos de verdade. Rebeca procurou Júlia para contar, sem mais ninguém ouvir, que estava sendo assediada por um cara que se dizia chefe de Golias e de muitos outros na Força Maior. O que ele queria? Fazer umas perguntas “inocentes” sobre a produtora e a Novas Ideias, disse que se admirava muito de ver tantos jovens na fila, pra ganhar um sanduíche e um empreguinho que nunca viria. Rebeca contou ainda que o nome do cara era Sampaio Correia e toda hora ele falava que a Força Maior não era aquele bicho de sete cabeças que Golias pintava. Júlia explicou que Sampaio Correia era nome de um time de futebol, Rebeca ficou surpresa: ah, é?, eu não gosto de futebol. Júlia disse que em geral mulher não gosta mesmo. Rebeca perguntou: será que esse cara tá me tirando?, o que você acha que  eu devo fazer, Júlia?, aceito o convite e tento descobrir alguma coisa? Júlia disse que achava perigoso, vai que o cara é um tarado. Rebeca achava que Sampaio não tinha cara de tarado: tarado vai logo agarrando, passando a mão, não é? Júlia explicou que nem sempre, nem sempre é assim, vai cozinhando o cara em banho-maria, não descarta nem aceita. Rebeca disse que tudo bem, mas Júlia podia saber que, pela causa, ela estava disposta a tudo.
SOM AMBIENTE. Olavo puxou conversa com Sueli, perguntou como é que estava o estágio, depois pediu desculpas, lembrou que ela não era mais estagiária, nem ela, nem Mara, por falar em Mara, você sabe se ela tem namorado? Bem sutil, não é? Sueli respondeu que não sabia, mas achava que não, sei lá, Olavo, tá a fim dela, se joga. Olavo pensou: isso é que dá ser direto, não é isso, Su, ou é, sei lá, só queria saber mesmo. Sueli deu um tchau, amigo, acho que ela tá sozinha, sim. Foi embora pensando, por que as pessoas se enrolam tanto nessas coisas do coração? Lembrou de uma conversa que teve algum tempo atrás com Mara, o contexto era a liberdade, principalmente a liberdade de cada um ser o que é, sem se sujeitar a pressões da família, dos amigos, dos colegas de trabalho, da sociedade, enfim. Na época, Sueli achou que isso era óbvio, tipo coisa da cabeça de adolescente. Mais tarde, viu que aquilo podia ter um conteúdo político ou ligado a sexo e às preferências de cada um, ou será que Mara queria se referir aos programas que ela, Sueli, fazia naqueles tempos de ousadia sem limites? Podia ser tudo isso, mas a vida era de Mara e ninguém tinha o direito de se meter.
Jarbas acordou com umas ideias malucas na cabeça. A primeira brilhou como um relâmpago: por que todas as campanhas têm que ter essa enxurrada de racionalismo, sem nunca se aproximar do coração das pessoas? A melhor maneira de defender a democracia, por exemplo, não é criticando a ditadura com palavras. Surte muito mais efeito se a gente mostrar cenas “reais” do cotidiano de um país sem democracia. Jarbas anotou: discutir personagens e roteiro com a criação.
Vinganças que passaram pela cabeça de Vânia para fazer Carlos Ortega pagar por sua falta de confiança: usar seus recursos de fêmea apaixonada para convencer Ortega a se divorciar, e em seguida abandoná-lo sem explicações; provocar ciúmes, insinuando que transa com Valentino, Olavo, Varela, mas que prefere a inteligência e a sensibilidade de Jarbas; dar um gelo de um mês, uma semana, dois dias naquele filho da puta, pra ver se ele se arrasta como uma lacraia repelente a seus pés. Vânia pensou um pouco e concluiu que tudo isso era bobagem, coisa de garota mimada. Não queria se afastar, não queria que ele se afastasse, no fundo, Vânia sabia do poder que alcançara sobre Carlos Ortega, um poder que só poderia ser exercido através da falsa submissão e só se manteria enquanto continuasse viva a amizade entre os dois. Em outras palavras, Vânia sabia que, mais do que mandar, Ortega gostava de sentir que os outros acreditavam que ele mandava. O amor parece um game em que às vezes os dois podem ganhar, pensou. O problema nesse jogo é que Vânia não se identificava com o papel de manipuladora ou vingativa, tampouco queria se converter em uma garota pragmática, que mede cada passo pelas vantagens que a vida pode lhe dar, não queria repetir o padrão de uma garota igual a tantas outras nesse mundo de carência e solidão. Vânia jura que não vai cair na armadilha dos vencedores, mesmo que nessa hora escute a voz de sua mãe, perfurando-lhe os tímpanos: menina, você não terá esse rosto e esse corpinho a vida inteira.
AUTOCHROME. “No fim de tudo isso, bom seria se uma ampla maioria resolvesse apoiar a ideia de criarmos um Leviatã dentro do próprio Leviatã, um monstro que devorasse as tripas corrompidas e insaciáveis do estado devorador”, com essas palavras Jarbas concluiu seu artigo, publicado originalmente no site da Coligação e depois reproduzido e citado em outros órgãos de imprensa e também nas redes sociais. O artigo não era polêmico em sua essência, mas tocava em pontos explosivos na discussão política, o maior deles, sem dúvida, era essa ideia de devorar o estado monstruoso que a todos nos devora. Jarbas classifica como escândalo o fato de o estado brasileiro, para se manter, precisar de quarenta e dois por cento do PIB, que é tudo que o país produz durante o ano,  e pergunta: quantas pessoas sabem que o estado não cria riqueza alguma, não produz absolutamente nada?, quem produz é a sociedade, o estado vive às custas de impostos, taxas, multas, contribuições, confiscos, desapropriações, dia e noite, morde sem piedade.
O artigo de Jarbas recebeu alguns elogios, mas também muitas críticas. Ângelo, por exemplo, concorda com tudo que Jarbas escreveu, mas sabe que o partido, a coligação, vai ser atacada, e muito. Ângelo explicou em detalhes sua posição: as pessoas acham que o estado tem que ter recursos pra garantir o que o povo  precisa: educação, saúde, segurança, essas coisas todas. No fundo, a discussão é essa mesmo: o movimento de redução do estado tem que vir junto com o desenvolvimento sustentado, temos que aumentar a produtividade, só isso vai garantir o aumento da renda per capita, única solução de longo prazo, aceita pelo mercado, mas quem é capaz de entender e abraçar essa proposta? Há séculos vivemos sob o comando de paternalistas e populistas com suas falsas benesses, é isso que elege e derruba governos. Janaína lembrou a medusa em que havia se transformado a CLT, uma legislação arcaica e, apesar disso, intocável para a maioria de trabalhadores e sindicatos: a CLT, senhora de mais de 70 anos, não é capaz de atender às necessidades do mundo de hoje, ela é responsável pela nossa marca de campeões mundiais em processos trabalhistas, com o total de três milhões de processos em 2016, enquanto os Estados Unidos, por exemplo, com uma população maior do que a nossa, registrou apenas setenta mil no período.
Janaína resolveu ouvir a opinião de outros profissionais da produtora. Foi conversar com Júlia, Valentino, Varela, Olavo e também Rebeca, a líder dos candidatos a figurantes. Mostrou a eles o artigo de Jarbas e resumiu as discussões sobre o conteúdo e  as dúvidas levantadas. Júlia foi direto ao ponto: Jana, o perigo é que entendam errado essa discussão, acho que não devemos nem falar nisso agora. Nesse caso, o mal já está feito com o artigo de Jarbas, disse Valentino. Esse negócio de CLT, o quê que é, Rebeca perguntou. Janaína procurou explicar que o desafio era fazer essa campanha sem obrigatoriamente falar o que o povo quer ouvir, coisa que já acontece com todos os outros partidos e coligações. Concordo, com você, Jana, disse Varela, mas também acho que há um enorme risco para quem entrar por esse caminho, a gente pode acabar falando sozinho. E com um belo adesivo na testa: inimigo do povo, Olavo completou. Vamos ser caçados nas esquinas?, Rebeca perguntou e ficou olhando, com os olhos arregalados e de boca aberta.
Resolveram continuar a conversa mais tarde, Jana ia ver a agenda e depois marcava. Quando todos estavam saindo da sala, Janaína pediu a Rebeca para esperar um pouco mais, queria explicar o que era CLT, esclarecer alguns pontos do artigo de Jarbas e a posição da Novas Ideias. Janaína ouviu algo que ficou martelando  sua cabeça: São Jorge e Santo Antônio não serão candidatos nas próximas eleições, acha que foi Varela quem falou.
A divisão chegava com força. José de Alencar achava que as tentações populistas, que se baseavam em soluções fáceis para problemas complexos e falsas promessas de bem estar geral, essas tentações estavam crescendo, como se as pessoas estivessem cansadas dos problemas, dispostas a se agarrar à primeira tábua podre pra se livrar do naufrágio. Para Ângelo esse era um risco iminente e todos da Coligação deviam ter consciência do perigo. Tem razão, disse Alencar, mas tem coisas práticas que precisamos decidir o quanto antes, por exemplo, acha que Laerte vai desistir do confronto com a Força Maior? Na verdade, são duas faces da mesma moeda, Ângelo respondeu, de um lado, Golias e sua truculência militarista; de outro, “papai Laerte”, o homem do povo, paladino, justiceiro, aquele que sabe como ninguém interpretar o sofrimento de sua gente. Perfeito, Ângelo, disse o candidato José de Alencar, mas queremos saber que posição assumir nessa batalha. Ângelo gostou da palavra “batalha” e começou a discorrer sobre teoria de guerra medieval, estratégias de ataque e defesa, correlações com a luta na política. Interessante, mas não era o que José de Alencar queria ouvir, o problema a ser resolvido na prática devia responder a uma simples indagação: que atitude devemos tomar? Vamos participar ou não da passeata de Laerte? Se no caminho acontecer um confronto com a Força Maior, que posição a Novas Ideias deve assumir? Ângelo respondeu que, na sua opinião, não se pode apoiar nenhuma das duas correntes, se é para ser coerente, não vamos aceitar aliança com qualquer tipo de populismo, de direita ou de esquerda. José de Alencar: nesse caso é melhor não ir à passeata, mandamos uns garotos dessa turma de figurantes, só pra olhar e sentir o clima, depois eles contam o que viram. Tá ok, disse o mandachuva, ainda pensando se estava na hora de fingir que recuava com a intenção de atacar a qualquer momento.
BLOW UP. Carlos Ortega não precisou de muito tempo para concluir que não devia obediência a Jarbas, nem a qualquer pessoa da America ou da Coligação, por isso resolveu observar de longe a concentração e a passeata de Laerte Alvarez. Desde cedo a praça em frente à emissora já estava “preparada”, com faixas de apoio ao programa Desce a Lenha, cartazes com palavras de ordem, tipo Fora Golias, Abaixo a Força Bruta. Alguns sindicatos estacionaram os caminhões de som nas ruas próximas, quando Ortega chegou estavam testando o áudio com músicas e contagens regressivas. A concentração estava marcada para as nove, mas desde as sete os testes acordavam a vizinhança. No início, o movimento serviria como um desagravo à violência contra a emissora e às acusações contra Laerte e seu programa sensacionalista. No entanto, nas semanas anteriores ao dia marcado para a concentração, o clima de radicalismo atingiu o auge, com acusações e ameaças de ambos os lados. Laerte dizia-se independente e apolítico, acusava Golias e a Força Maior de tentarem impor à força um programa de falsa moralização da política, centrado no ódio e nos ataques violentos contra os demais partidos e coligações. Laerte deixou de acusar diretamente Golias, para diminuir sua importância no processo, chegando a chamá-lo de carniceiro e pau-mandado, o que sem dúvida, irritou profundamente o indivíduo Carlos Alberto Cordeiro. O estilo de Laerte alternava entre a doçura inesperada e uma  agressividade sem limites. Marzagão, além de faz-tudo, também era repórter da emissora e conselheiro de Laerte, um conselheiro muito bem informado, mas que raras vezes conseguia convencer seu chefe. Foi Marzagão quem pediu aos donos da rádio autorização para contratar uma equipe de seguranças, só para evitar surpresas. O fato é que as ameaças de Golias estavam cada vez mais frequentes e perigosas: ordenou a Marzagão que transmitisse a seu chefe um aviso, mais que um aviso, uma nova ameaça: “Desmarca essa bosta ou o sangue vai jorrar na praça”.
Ortega ficou no bar olhando o povo que chegava com bandeiras, cornetas, cartazes e bonecos com a caricatura de Golias vestido de prisioneiro. Quando a praça começou a transbordar de gente, os caminhões de som desligaram a música e Laerte apareceu na sacada do prédio da rádio, segurando um megafone. Foi imediatamente reconhecido. As pessoas gritaram, aplaudiram, soltaram foguetes e, como se estivessem bem ensaiados, começaram o coro: “Bandido, nem venha. Laerte desce a lenha”. Ortega balançava a cabeça na porta do bar, gostava de café no copo, sem açúcar.
Jarbas concluiu que era melhor pedir a Maristela, Barreto e Sueli para acompanhar, apenas acompanhar, a concentração e a passeata de Laerte Alvarez contra as ameaças e ofensas de Golias. Sueli perguntou se podia levar Ramiro, Jarbas achou ótimo, formam dois pares, podem até ficar abraçados. Maristela, a nova recepcionista, fez cara de quem não gostou da ideia de ficar abraçada a Barreto, o motorista da America Pictures. Jarbas percebeu e disse: quem quiser que abrace, quem não quiser que desabrace, mas nada de se meter em confusão, pessoal.
O candidato José de Alencar aproveitou que a porta estava destrancada e entrou na sala que Ângelo ocupava na coligação. Foi bastante discreto para fingir que não viu Janaína se levantar apressada do colo do mandachuva. Alencar não desviou os olhos, mas também não encarou ninguém. Apenas disse: fiquei sabendo de uns negócios que precisamos discutir, é sobre o verdadeiro papel dos radicais da Força nas manifestações e na campanha. Janaína abriu umas gavetas atrás de umas fotos que enviaram anonimamente para a Coligação, Ângelo se endireitou na cadeira e  levantou a tela do notebook. Como nenhum dos dois disse nada, Alencar continuou: a gente já sabia que um dos objetivos dos radicais era inviabilizar a democracia, pelo menos, desmoralizar as eleições, desacreditando os partidos e as mudanças recém aprovadas, agora, hoje de manhã uma fonte me disse que a Força Maior não vai concorrer, nem lançar candidato. Vão perder o Fundo Partidário e outros benefícios?, perguntou Janaína. Parece que a jogada é outra, respondeu Alencar, não sei exatamente qual. Essa fonte é de confiança?, disse Ângelo, falou alguma coisa sobre Golias e a concentração na emissora do Desce a Lenha? Sim, respondeu o candidato da Novas Ideias, parece que vão cercar a praça e cortar o mal pela raiz. Nossa… vamos fazer o quê com o pessoal que foi lá pra observar o comício?, disse Janaína, vou ver se  ainda dá tempo de mandar uma mensagem pra eles.      
Sueli e Ramiro encontraram Ortega fumando na porta do bar. Ramiro perguntou se Carlos também estava escalado como observador, mas ele disse que não: tô aqui por conta própria, me disseram pra não vir, mas quero ver de perto o que vai acontecer.
Sueli mostrou a Ramiro e a Ortega a mensagem de Janaína que acabara de receber no celular. Não havia maiores explicações, só o aviso para abandonar o local. Ortega pediu que Sueli não informasse que ele também estava na praça. Ramiro achou que Su  devia responder, avisando que estava tudo tranquilo e perguntando qual a razão para sair do local. Sueli enviou a mensagem e os três continuaram por ali, procurando Barreto e Maristela, cada vez mais difícil de encontrá-los no meio da multidão. De repente, Laerte começou a falar no alto da sacada do prédio da emissora. Ortega, Ramiro e Sueli acharam que não havia motivo para sair naquela hora. Vamos esperar e pelo menos ouvir o discurso de Laerte, disse Ortega, eu vou ficar pra ver no que isso vai dar. Ortega não precisou esperar pela resposta. Pouco depois de Laerte acusar a Força Maior pela invasão da emissora e a violência praticada, uma bomba poderosa explodiu no saguão da rádio, as pessoas começaram a correr apavoradas, algumas caíram e foram pisoteadas, como é comum acontecer nessas ocasiões, quem ainda está de pé prefere não olhar, nem dá tempo. Antes que o dono e os funcionários do bar e restaurante Gato Preto fechassem as portas,  muitas pessoas invadiram o salão, quase sufocando quem já estava lá dentro. Ortega sentiu que devia proteger Su e Maristela, até Ramiro precisava encontrar, e tirar todo mundo dali, mas aquilo dentro do Gato estava uma loucura, com gente caída no chão, cadeiras e mesas quebradas, o dono atrás do balcão tentando se proteger e impedir que algumas pessoas desnorteadas avançassem no seu estoque de bebidas e tira-gostos. Ortega não conseguia encontrar nenhum dos três, como é que todo mundo sumiu assim de repente?, Ortega pensou, foi bem nessa hora que uma voz feminina chegou por trás de Carlos Ortega e disse baixinho: oi… Ortega virou a cabeça no meio das  outras “sardinhas” e deu de cara com Vânia. Ah, meu Deus, mais essa agora, Ortega disse, o que é que você tá fazendo aqui, menina? Vânia respondeu: é assim que você me recebe, Carlinhos? Vim pra te proteger, pra não deixar você fazer nenhuma loucura, cadê os outros? Aos poucos, as pessoas encontraram um caminho pra sair em segurança da praça, sem pisar uns nos outros. O bar foi esvaziando, o dono e o único garçom pediram que todos se retirassem porque ia começar uma faxina com as portas fechadas. Ramiro, Sueli e Maristela reapareceram, com algumas escoriações, roupas rasgadas e sem um pé de sapato que Maristela perdeu, nem sabe como. Faltava descobrir onde Barreto se enfiara. Vânia ligou para a América e Júlia informou que naquele momento o motorista estava ofegante, perdera os documentos e agora bebia meio copo d'água com açúcar. Sua única frase até aquele instante foi: logo eu, que não me meto em política.
A atriz Stephanie Lammar voltou de uma cansativa excursão pelo interior, onde atuou como protagonista na peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos. Chegou, se instalou como uma rainha egípcia e mandou chamar Iago, é claro. Iago não veio, Stephanie foi atrás de Roger. Roger também não foi encontrado. A atriz de renome internacional esteve a ponto de subir pelas paredes de seu camarim na produtora, mas desistiu a tempo e pediu à auxiliar de cozinha um chá de laranjeira, disposta a saborear sua inesquecível performance como Neusa Sueli, a puta humilhada, de navalha em punho. Naquela mesma tarde, conversou, perguntou, informou-se e saiu pela produtora atrás de Rebeca. Quando a encontrou, fuzilou a garota com os olhos e disse baixinho: você não tem amor à própria pele, vadia? Fez que ia dar uma bofetada na cara de Rebeca, chegou a levantar o braço, mas levou foi um pontapé na altura da virilha. Stephanie caiu sentada no chão e ainda ouviu a garota perguntar: você não tem amor às próprias nádegas, vagabunda? Stephanie teve um chilique daqueles, gritava sacudia o corpo, outrora impecável, exigia providências contra o que ela chamou de tentativa de homicídio. Rebeca e os figurantes riram, Iago ficou olhando e aconselhou: cuidado com essa mulher, é imprevisível. A tese da legítima defesa acabou vitoriosa, todos na América e na Coligação gostavam mais de Rebeca do que de Stephanie, muito mais. A atriz arrumou as malas e partiu, jurando vingança.
Depois da bomba que detonou a manifestação e a passeata de Laerte Alvarez, a coligação Força Maior distribuiu para a imprensa e ao povo nas ruas um minimanifesto, mais uma vez negando a participação no atentado , sem, contudo, recuar um milímetro nas suas opiniões radicais. Frases como: "A Força é a favor da pena de morte; outros partidos e coligações são a favor da morte da pena, querem viver no reino da impunidade” demonstram o grau de acirramento e intolerância. Mais uma vez, a coligação Novas Ideias optou por não “vestir a carapuça” e preferiu iniciar uma devassa na vida e nos atos de Carlos Alberto Cordeiro, o famigerado Golias. José de Alencar contratou um detetive aposentado, que em poucos dias descobriu que Cordeiro era alvo  de quatorze processos, a maioria com prisão decretada e, em seguida, misteriosamente, revogada. Chantagem, estelionato, agressão, tentativa de homicídio, são alguns dos crimes dos quais Golias é acusado. A dúvida de Alencar, compartilhada por todos os chefes da América Pictures e da Novas Ideias, era se deviam ou não denunciá-lo publicamente. Duas consequências imediatas foram discutidas: Golias ganharia exposição com a denúncia; o clima de radicalização contaminaria o ambiente político, esperando-se, inclusive, uma nova rodada de atos violentos. Aí, surgiu aquela velha história, que o próprio Alencar levantou, não fazer nada, ou seja, omitir-se, daria novamente a impressão de que a Novas Ideias estava em cima do muro. A vontade que dá é usar os métodos do próprio Golias, contratar alguém, vocês sabem, disse Janaína, que falou por falar, sabia que as consequências seriam ainda piores do que a omissão. Enfim, disse Ângelo, quando não há nada a fazer, o que acontece é que não fazemos nada.
SEQUÊNCIA. Não houve nenhum escândalo, parece que todo mundo na produtora já estava esperando que a qualquer momento alguém  ia colocar a arrogante atriz no seu devido lugar, isto é, fora da America e da Novas Ideias, eliminando suas pretensões de participar da campanha. Duas mulheres e um homem; dois homens e uma mulher, Vânia foi a única pessoa na America Pictures que ficou pensando seriamente nas consequências desses triângulos, tão antigos quanto o próprio homem. Rabiscou no celular uma mensagem com o título “Em Busca do Impossível”, que deveria enviar para Ortega, mas talvez nunca o fizesse. O texto começava com a pergunta que tanto incomodava a secretária: e se um dia sua mulher aparecesse aqui na America Pictures, talvez dando a mão a seu filho, e no meio do pátio perguntasse bem alto: quem é essa tal de Vânia? O problema ali não era descobrir qual seria a atitude de Ortega, muito menos especular sobre a opinião dos outros. Qual era o problema, Carlinhos?, esperar seu filho crescer pra ver o que ele achava de tudo aquilo, que na hora nada entendeu? Vânia não era moralista nem tinha medo de sair daquela história com Carlos Ortega carimbada como “destruidora de lares”, não acreditava nessa bobagem, nunca acreditou, nem quando seu pai resolveu sumir de cena, quando ela, Vânia, ainda estava como seus sete, oito anos. Ele se foi, porque não dava pra ficar, Vânia sempre pensou assim. Talvez um dia aconteça a mesma coisa com Ortega.
Júlia, Mara e Sueli foram escolhidas para montar e gerenciar o comitê feminino da Novas Ideias, Novos Rumos. As três aceitaram sorridentes, mas… Sueli pensou: não concordo com esta merda de separar homens e mulheres, uma coisa idiota, cada vez mais comum; Júlia disse baixinho: preferia organizar o comitê da juventude, mas acho que isso vai ficar com Rebeca, sortuda; Mara gostou de verdade, pelo menos ia  ficar livre uns tempos dos olhares e cantadas semi-explícitas de Olavo, não que isso a incomodasse tanto, mas… deixa pra lá.
No primeiro programa Desce a Lenha depois do atentado, Laerte entrevistou pessoas que participaram da manifestação em frente à emissora e sofreram ferimentos, alguns graves, como fraturas e cortes profundos. A tônica do programa não foi a de denunciar a injustiça e a truculência, nem de pedir a rigorosa apuração dos fatos, como é comum acontecer em casos semelhantes. Laerte, em sua primeira participação, confessou que esteve a ponto de suspender a convocação, pois já recebera informações de que os inimigos preparavam aquilo mesmo que acabou acontecendo. Por que não desmarquei o encontro, que evitaria a violência e o pânico?, Laerte perguntou e ele mesmo respondeu: não podemos recuar em hora tão grave que a nação vive. Recuar é deixar o campo aberto para o massacre da democracia. Hoje explodem bombas nas estações de rádio, amanhã avançarão sobre o Congresso e o Supremo, sempre com a desculpa inaceitável de que o País exige soluções rápidas, antes que se deflagre a guerra civil. Laerte foi eloquente, mas evitou exagerar na sua personalidade polemista. De certa forma, o programa foi um balde de água fria para quem esperava um Desce a Lenha com novos dados e acusações para desmascarar a Força Maior e seus métodos sanguinários. Nenhuma passeata ou ato de protesto e solidariedade foi convocado. Laerte não citou o nome de Golias ou Carlos Alberto Cordeiro. Se aquilo serviu para acalmar seus ouvintes? Isto, por enquanto, não era possível concluir, não sem uma pesquisa.
O amigo de Rebeca, o tal que dizia se chamar Sampaio Correia, ligou para pedir que Rebeca perguntasse a Janaína se ela aceitaria marcar uma conversa informal, com Rebeca presente, é claro. Rebeca perguntou qual era o assunto. Sampaio foi lacônico, na hora a gente vê, disse. Acho que desse jeito ela não vai aceitar, respondeu Rebeca. Acho que vai, vocês, mulheres, adoram um mistério, disse Sampaio Correia e desligou o telefone.
Valentino revisou o material gravado para o lançamento da campanha Quem Tem Medo da Verdade? A surpresa foi constatar que, na medida em que o tempo passava, as soluções radicais ganhavam força, chegando ao ponto de se tornarem a esmagadora maioria. Nesse ponto, a dúvida voltou a incomodar: divulgar o caminho radical vai dar a impressão de que a Novas Ideias concorda com ele; não divulgar seria desonestidade, que mais tarde poderia ser descoberta e usada contra a própria Coligação. Kléber foi irônico: quer apostar que mais uma vez vamos cancelar o lançamento e adiar sabe-se lá pra quando? Valentino achou que não era pra desanimar: é um xadrez, cara, Jarbas é bom nisso, vamos consultá-lo. Tem que haver uma saída.
Alencar chegou com cara de “eu não falei?”. Choveram perguntas só com os olhos. Ele mesmo tomou a iniciativa e propôs: gente, vamos fazer uma reunião ampliada, um plenarinho da Novas Ideias em conjunto com a America Pictures? Ângelo concordou na hora e pediu para Janaína fazer uma relação de quem deveria participar, depois perguntou a Alencar se havia alguma novidade da tal fonte secreta. Alencar disse que sim, que esse era um dos pontos que deveriam discutir na reunião, mas que podia adiantar que alguns chefões da Força Maior já estavam querendo detonar Golias, mas não necessariamente seus métodos truculentos, o problema é a exposição excessiva, segundo Alencar, um mandachuva da Força chegou a reclamar que Golias estava querendo pegar a Coligação pra ele, como propriedade sua. Ângelo sorriu e disse: criaram a cobra, agora aguentem a mordida.
A solução que Jarbas encontrou foi a de mudar a pergunta. Substituir a tradicional “Quem tem medo da verdade” para algo como “Você entende o que acontece hoje na política do País?” ou “Você está satisfeito com a política no País?” Valentino concordou que este poderia ser um caminho, mas achava que as pessoas, a grande maioria não entendia nada e isso ia ficar evidente nas entrevistas, todo mundo vai continuar esculachando a política e os políticos e só. Kléber concordou: podemos experimentar, mas pelo que a gente viu as pessoas querem mesmo é detonar os políticos. Jarbas pensou um pouco e acrescentou: daí a preferência por medidas radicais, violentas, quando não se vislumbra a saída, o único caminho é explodir as barreiras, chutar o pau da barraca, ainda se usa isso? Valentino e Kléber riram, Jarbas convidou os dois para a reunião da America e Novas Ideias, vamos colocar mais cabeças pensando para encontrar um caminho.
Marcaram a reunião para o auditório no subsolo do prédio da America Pictures. Além dos já esperados, também participaram Rebeca, Henrique, Olavo, Varela, Júlia, Mara, Ramiro, Sueli, Vânia, Maristela e Rafa, representante da criação, indicado por Ortega. Alencar distribuiu um artigo de duas páginas. Para a maioria, o tema era pesado, difícil assumir uma posição. Alencar pediu que pensassem sobre o parágrafo em negrito, achava que seria um bom subsídio para a reunião:

...Hoje não mais se adota a definição ideológica ou a posição política como base para as alianças. As forças contrárias à democracia em todo o mundo crescem rapidamente com o uso da força e a pregação da intolerância. É o que funciona nos dias de hoje como catalisador de frustrações contraditórias. Querem um exemplo? Vejam o poder do russo Vladimir Putin e a influência que ele, com suas atitudes belicistas, exerce sobre líderes políticos do mundo inteiro, das mais variadas posições: Trump, Marine Le Pen, Bashar al-Assad, Tayyip Erdogan e muitos outros…

Ângelo abriu os debates ressaltando o ataque quase em massa que a democracia sofre hoje no mundo. Alguns chegam a usar o cinismo ao falar das contradições internas de um país democrático, que obrigam os governos a tomar reações lentas e não definitivas. Foi o que aconteceu no final do governo Obama, disse ele, que não pôde manter o compromisso de reagir à ofensiva do governo sírio porque temia que essa atitude viesse a prejudicar Hillary Clinton,  candidata democrata nas eleições que se aproximavam. Resultado: Hillary perdeu e Putin, ao lado de Assad, desmoralizou os norte-americanos, massacrando a oposição síria.
Janaína pediu a palavra para dizer que, depois de tantos escândalos, de tanta roubalheira e lentidão para punir os culpados, é cada vez maior o número de pessoas que se dizem democratas da boca pra fora: uma enorme parcela do eleitorado apoia o emprego da força contra políticos corruptos, contra bandidos comuns, contra grevistas diversos, até contra aqueles que têm opiniões diferentes das suas. Terreno fértil para coligações e partidos como a Força Maior, disse Ramiro em aparte.
Ortega, como sempre, resolveu testar uma ideia diferente: mais  dia, menos dia, esses caras vão ter que provar do próprio veneno.        Antes que alguém perguntasse o que ele queria dizer com isso, Ortega deu mais um cutucão: chega de estender tapete vermelho pra vigarista subir a rampa, mas calma, calma que não somos nós que devemos cuidar do remédio, não podemos descer ao nível deles. Rebeca e Henrique aplaudiram, Vânia gritou algo parecido com “é isso aí...”, os figurantes lá no fundão começaram um coro: Or te gá, Or te gá, parecia coisa de torcida organizada, mas não era. Ângelo cochichou no ouvidinho de Janaína: não falei?
Alencar interveio para levantar um outro ponto contraditório, além dos que estavam sendo discutidos: acho que passar oito anos reduzindo o tamanho do estado e depois mais oito anos aumentando, e muito, esse mesmo estado, isso é falta de planejamento de longo prazo, coisa que não se discute e não há uma definição a respeito. Infelizmente, não há país que aguente tanta bipolaridade. Mais uma vez esbarramos na dúvida sobre a capacidade do eleitor entender o problema e se posicionar a respeito. De qualquer forma, na minha opinião, não podemos deixar de lado um tema com essa importância.
Rafa trouxe um jingle gravado, na verdade, um monstro. Cantava as novas ideias de uma vida nova, de um mundo novo, rumo ao presente. A música começava com uns acordes bem suaves e ia crescendo, acompanhando a letra. Todo mundo gostou, elogiaram muito, apesar de Rafa explicar que o jingle não estava pronto.
Rebeca pediu desculpas porque não tinha muito a acrescentar, concordava com todos que eram contra o uso da violência, mas achava que Carlos Ortega mencionou um ponto importante, alguém ia usar de violência contra a Força Maior de tanto que eles provocavam. Era bom a Novas Ideias abrir os olhos, para não ser surpreendida e, quem sabe, até levar a culpa por algo que não fizemos.
Jarbas, Janaína, Ângelo, Ortega e Alencar ficaram olhando para Rebeca como se nunca a tivessem visto na vida, mas apenas Jarbas sorriu e pensou: essa aí vai longe, que bela surpresa.
Na reunião ainda discutiram sobre o que é preciso fazer para não cair no lugar comum com a proposta Ideias Novas. Outras coligações e partidos poderiam apelar para este mesmo tema, por isso a importância de deixar claro o quanto antes quais os novos rumos que o País deveria seguir. Ângelo argumentou que talvez fosse necessário avançar em etapas, ao invés de divulgar e defender um programa completo. A maioria concordou e Jarbas disse que a primeira etapa deveria propor blindar o Tesouro e as empresas públicas contra o assalto que vêm sofrendo durante décadas. Vamos ganhar muitos inimigos, disse Ortega, mas é o único caminho.
CHICOTE. “Você vota em pessoas ou vota em ideias? Vote em pessoas, vote em ideias, só não vote em pessoas sem ideias”. A proposta veio da criação e foi imediatamente elogiada e aceita, transformada em três cartazes: fundo preto, letra vazada em branco. Logo virou inserção para TV: lettering animado, coisa simples. Somente no VT entrava a assinatura Novas Ideias. Novos Rumos.
Início da noite, Rebeca estava saindo da produtora em direção ao ponto do ônibus, um homem caminhava atrás dela. Rebeca parou pra conferir, era o cara que tinha nome de time de futebol, mas que Rebeca esqueceu. O sujeito disse que era o Sampaio Correia e Rebeca lembrou: ah, é. Sampaio convidou a garota pra tomar uma cerveja, se ela fosse maior de idade, ou uma média e pão com manteiga se não fosse.  Rebeca respondeu que tinha dezoito, mas que não queria cerveja, nem média, um refri tá bom. Rebeca e Sampaio foram andando até o boteco. No outro lado da rua, Iago olhava para os dois, Rebeca viu, mas Iago desviou o olhar e apressou o passo.
Na manhã seguinte, Rebeca não se aguentava de curiosidade. Perguntou a Iago: ontem você me viu com aquele cara, o Sampaio Correia, caminhando pro boteco, por que não veio falar comigo?, não sente ciúme? Iago respondeu que sim, claro que sinto muito ciúme de você, Rebeca, mas eu também já senti na carne o que significa não ter liberdade pra nada, te amo demais pra fazer a mesma coisa contigo. Mais uma vez, Iago surpreende Rebeca, agora com uma maturidade difícil de encontrar até mesmo em homens com o dobro da sua idade. Claro que, para Rebeca, isso era sedutor, mas também intrigante. Teve vontade de dizer: nunca vou trair você, meu amor, mas achou que talvez ainda fosse cedo para promessas e juras desse tipo. Deixa rolar, Rebeca, as coisas acontecem naturalmente, foi o que pensou.
Jarbas entregou a José de Alencar um pequeno texto para abrir o programa político da Coligação: “Durante os últimos anos, você fez parte do pacote que políticos venderam às empreiteiras. Agora vamos provar: só com novas ideias podemos dar novos rumos ao País”. Não era definitivo, mas podia ser uma abertura para apresentar alguns pontos do programa, e Jarbas gostaria de ver o texto gravado pelo candidato.
Mara encontra Sueli na filial do bandejão, como era conhecido o refeitório da produtora, em alusão aos restaurantes universitários. Mara pergunta a Sueli se ela acha que amor verdadeiro só existe no amor espiritual. Su acha que a amiga está se referindo a ela e Ramiro, diz que no seu caso o amor está longe de ser apenas espiritual, Mara explica que não estava pensando na amiga, quer dizer, estava pensando em você, mas não em você e Ramiro, é uma dúvida que eu tenho, sempre tive. Janaína escutou a conversa, pediu licença pra sentar ao lado das duas. Mara continua: vocês acham que o amor verdadeiro pode ser tão forte, tão intenso, a ponto de dispensar o contato físico, só por medo de inviabilizá-lo? Sueli não diz nada,
Janaína responde: acho que vocês duas deviam assistir àquele filme Birdman, já viram?, tem uma alusão a um conto de Raymond Carver, “Do que estamos falando quando falamos de amor?”, é bem esse o tema, vale muito a pena ver. Mara agradeceu, Sueli sorriu. À noite, em casa, conversando com Ramiro, Sueli disse: acho que Mara está apaixonada. Ramiro respondeu com incontida alegria: sério?, que ótimo, já tava na hora mesmo. Sueli emendou: acho que é por mim. Naquele instante, Ramiro nem pensou em nada, só perguntou, bem alto: O QUÊ???
Ninguém sabe se foi Henrique, um outro garoto ou menina do grupo dos figurantes, mas o fato é que começou um boato, um zunzum, sempre levantando suspeitas, nada concretas, contra Rebeca. Reclamavam de sua posição privilegiada, de sua intimidade com os chefes da America Pictures e da Coligação, parece que havia alguém por trás, isso foi o que disse Iago, depois que alguns mascarados o agrediram na porta da pensão onde dormia. Não bateram pra valer, foi só uns tapas e uns socos na barriga, disse ele. Janaína perguntou a Rebeca quem poderia estar por trás da intriga contra ela, Rebeca pensou em Sampaio Correia, mas não tinha provas, nem indícios. Queria saber quem acusou Henrique, disse Rebeca, claro que ele não teve nada a ver com isso, somos amigos. Janaína perguntou se Rebeca podia identificar quem era inimigo ou adversário de Iago, podemos começar  por aí, descobrindo quem o agrediu. Rebeca respondeu que Iago não tem inimigos, todo mundo gosta dele, pensou um pouco, quase todo mundo. Combinaram que Ortega ia falar com Iago e mais tarde com Henrique. Ortega disse que no início fez uma avaliação errada dos figurantes, agora até que achava os garotos importantes para a Novas Ideias, talvez seja o caso de separar o tal joio do trigo, disse, o problema é que não conheço ninguém que já tenha visto esse tal de joio. Janaína riu, disse que também não conhecia: o negócio é tratar com naturalidade, como se nenhum de nós soubesse dos boatos e da agressão a Iago. Vou levar a Vânia comigo, tudo bem?, perguntou Ortega. Tudo ótimo, disse Janaína.
Alencar gravou um texto para rádio, mas antes teria que submeter ao board da Coligação. Agressivo? Perigoso? Ou simplesmente sincero e ousado, como o momento político exigia? Reuniu todo mundo no auditório do subsolo da America Pictures e antes de apertar o Play, disse: vejam e julguem:

“Você, como eu, já deve estar cansado de tantas notícias sobre políticos corruptos, ladrões inescrupulosos que levaram o País à sua maior crise econômica e moral da história. Você, como eu e tantos milhões de brasileiros, talvez tenha vontade de sumir, de mudar de país, porque já perdeu a esperança e vê que tudo se complica a cada dia. Muitos acham que só através de uma transformação radical na esfera política podemos recuperar o mínimo de dignidade. É nesse ponto que eu quero fazer uma pergunta direta a cada um de vocês: o que faremos com as pessoas que, fora da política, agem como os piores políticos? Ou vamos esquecer dos fiscais que se vendem para liberar carne podre? Vamos perdoar os donos das poderosas empresas que compram laudos falsos para maximizar seus lucros? E os médicos que jogam na lixeira qualquer vestígio da ética para indicar o uso de próteses superfaturadas a pacientes que delas não necessitam? E os guardas penitenciários, com seus contrabandos de armas e celulares para o interior dos presídios? Não vamos falar nos conselheiros dos tribunais de contas, aqueles que levam na surdina polpudas comissões para semicerrar os olhos à corrupção generalizada? E os juízes que já foram pegos com a boca na botija , valem-se dos mil recursos para garantir a “ilibada” conduta, e têm direito adquirido, na pior das hipóteses, a aposentadoria proporcional? Dessa gente não falamos? Vamos ignorar a devastação da floresta amazônica e da mata atlântica, que há décadas vem sendo feita pelos “heróis” do agronegócio? Infelizmente, a corrupção, a violência, o crime, tudo isso está no cotidiano do nosso país. Não se trata de perdoar políticos corruptos, longe disso, o que precisamos é estender a área que necessita de uma
faxina exemplar, sempre dentro da lei, de acordo com a democracia. É um esforço hercúleo, mais uma vez vamos lembrar dos gregos. Espero a sua opinião, entre no site http://ahoraeavezdaverdade.com.br Muito obrigado. Eu sou José de Alencar, candidado da Coligação Novas Ideias. Novos Rumos.
 
Para trazer a política de volta à realidade nua e crua, nada melhor, ou pior, do que aconteceu na casa em frente à produtora. Um morador de rua pulou o muro e, como estava faminto, roubou a tigela do cachorro e devorou a ração. O doberman, que estava amarrado a uma árvore, latiu, avançou, mordeu a corrente, fez de tudo para abocanhar o ladrão. Ninguém estava em casa e o morador de rua pulou novamente o muro e lá se foi para a esquina onde dormia todas as noites debaixo da marquise. Até aí nada demais. O episódio podia servir como um alerta para as condições precárias em que vivem os moradores de rua, mas o que poucos sabiam é que ração de cachorro pode ter em sua composição osso triturado. O animal faz a digestão sem problema, mas o ser humano, não. Neste caso, o osso funcionaria como vidro moído.  O pobre homem começou a passar mal, com dores, náuseas e outros sintomas. Chorou, gritou, deu cabeçadas na porta da loja fechada .  Chamaram a assistência social, que ligou para a emergência médica, que resolveu levá-lo para o pronto-socorro. A partir daí começaram os boatos, o pior de todos informava, no dia seguinte, a morte do morador de rua, vítima de hemorragia interna. A verdade é que ele não mais retornou à sua esquina, logo ocupada por uma família, sem terra e sem teto, mas com um pacote de biscoito para as crianças. O vizinho aumentou o muro e colou vidro de garrafa quebrada na parte superior, o cachorro continuou latindo noite a dentro e a política… não tinha mesmo nada a fazer.
Duas coligações ocuparam o espaço gratuito na TV com programas bem diferentes: a Frente Trabalhista, ainda considerada de esquerda por muitos eleitores, e os Republicanos Independentes. Com um discurso agressivo, mas sem propostas inovadoras, a Frente acusou até mesmo antigos aliados. O resultado aparente foi um misto de ressentimento e de medo, uma vez que muitos de seus principais dirigentes estavam comprometidos com a corrupção no governo e partidos aliados. Alguns desses líderes já estavam presos e outros aguardavam o final dos processos, em posições nada confortáveis. Quem assistiu aos dois programas pode ter desconfiado que os Republicanos Independentes conheciam com antecedência a linha adotada pela Frente Trabalhista, que golpeou os pontos fracos dos adversários e fez uma retropesctiva jornalística de todas as denúncias contra seus representantes no parlamento. Mais uma vez, o grande tema foi a corrupção e os males que ela introduz na política. Faltaram soluções, propostas concretas, foi a opinião comum a todos da Novas Ideias, Novos Rumos. O desafio é sair do lugar-comum, quem conseguir ganha o jogo, disse Jarbas Oliveira. Ângelo concordou: temos que colocar no papel todas as propostas, ponto por ponto.
COPIÃO. O homem que dizia se chamar Sampaio Correia e tentava se aproximar de Rebeca, na verdade, era um ex-detetive, agora investigador particular, contratado  por Carlos Alberto Cordeiro. Sua missão: descobrir falcatruas na America Pictures e também na Coligação Novas Ideias, qualquer irregularidade que abrisse um flanco “negociável” entre os adversários da Força Maior. Algumas coisas Sampaio já havia descoberto, como, por exemplo, o fato de que ainda faltavam dois anos para Rebeca completar os dezoito. Sampaio levou essa informação a Golias, que se limitou a responder, ela tem dezesseis?, e daí, porra? E daí que a Coligação estava usando menores de idade, através da produtora, e isso poderia servir para uma denúncia, até como trabalho escravo, os menores ficavam lá em troca de sanduíche e Coca-Cola. Golias respondeu: tudo bem, mas é pouco, muito pouco, preciso de mais, muito mais pra detonar esses filhos da puta. Sampaio disse que estava ganhando a confiança de Rebeca e pediu a ela que intermediasse uma reunião com Janaína. Conversei com uns garotos e me confirmaram que ela e o tal do Dr. Ângelo são amantes, essa Janaína é casada, o marido sumiu, disse o investigador. Golias gostou: é por aí, descubra esse marido e dá uma grana pra ele armar um barraco na coligação, na hora certa vai ter uma equipe gravando cenas picantes na produtora deles, e   Carlos Alberto Cordeiro deu uma gargalhada cavernosa, capaz de  assustar qualquer um, menos Sampaio Correia, que era macaco velho. Antes de sair, Golias ainda esbravejou: que porra é essa de dizer que seu nome é Sampaio Correia, você é do Maranhão, Aristides?
Olavo disse a Júlia que ouviu umas conversas estranhas. Júlia quis saber o que era, mas Olavo desconversou. Júlia insistiu, “apertou”. Olavo acabou contando que ouviu dos figurantes uma história de espionagem, de novo aquele papo de que alguém na produtora passava informações , lembra que já teve algo assim? Júlia lembrava mais ou menos: era aquela conversa numa reunião que acabou saindo nos classificados? Olavo confirmou, disse que nunca foi apurado, mas que podia ser invenção dos garotos. Não acho, Júlia respondeu, por que iam inventar uma história dessas, pensa que a coisa tá esquentando, mais um pouco, ferve. Me dê um nome, Olavo, de quem você escutou essa conversa? O cinegrafista, também conhecido como diretor de fotografia, disse que não ia falar, não tava ali pra dedurar figurante e além disso ninguém sabia quem era o tal espião ou espiã: melhor fazer como Samuca, que não se mete em política. Tá bom, Júlia respondeu, vou acabar descobrindo, pode apostar. Por dentro, Júlia resmungou: Varela vai me ajudar nessa, ah vai... 
Vânia pergunta a Ortega se ele prefere conversar com Iago e Henrique juntos ou um de cada vez. Ortega diz que não quer que eles percebam o motivo da conversa, tem que ser uma coisa natural, quando uma pessoa fica desconfiada, arma uma defesa, qualquer pessoa, Vânia. Vai ser difícil, disse Vânia, mas eu posso puxar o assunto, assim como quem não quer nada, pergunto a você qualquer coisa sobre Rebeca, na frente de Henrique, por exemplo. Ortega gostou da ideia e achou que podia responder: Rebeca anda estranha, parece que tá com algum problema… Aí você pergunta pro Henrique: o que é, você tá sabendo? Tá certo, disse Vânia, se quiser falar, ele fala, mas se não quiser, não tem como. Nesse caso, vamos para o Iago, certo? Ortega não diz nada, não tem o que dizer. Vânia continua: eu acho até normal o que está acontecendo, Rebeca é a chefe dos figurantes, claro que deve ter alguns garotos querendo o lugar dela. Pode ser, diz Ortega, ainda mais que eles devem imaginar que Rebeca tem regalias que os outros não têm. Vânia diz que sim, concorda com Carlos, mas pergunta: que privilégios, que regalias ela pode ter?, essa história começou depois que a produtora aprovou uma verba, tipo ajuda de custo, para os mais antigos figurantes, Rebeca não ganha mais do que os outros. Ortega diz que não interessa o motivo, não é a regalia em si, mas a imaginação, a ideia do poder, talvez até Rebeca alimente só pra tirar uma onda, tá ligada?, ainda falam isso?

“À medida em que as eleições se aproximam, é cada vez mais clara a possível escolha de um protagonista comprovadamente corrupto, mas que muitos eleitores perdoam, tendo em vista a falta de alternativa e  o que acham que ele já fez em favor dos mais pobres. Comparam as administrações caóticas e corruptas de seu partido, que levou o País a esta situação de anarquia e penúria, com as dificuldades de uma economia recessiva que enfrentamos agora. Grande parte da população brasileira é pobre, ignorante, acredita que a situação só vai melhorar se Deus, que também é brasileiro, escutar as nossas preces. São pessoas que não sabem o que é estado laico, nunca ouviram falar nisso. Têm memória curta e por isso esquecem que os governantes de hoje são aliados históricos dos populistas cassados pelo impeachment. Nas próximas eleições, muitos candidatos vão continuar bajulando os eleitores com promessas falsas e alheias à nossa realidade. Através de pesquisas, descobrem o que o povo quer ouvir e passam a divulgá-lo em seus programas políticos. Não acreditem no canto das sereias porque ele só vai nos levar ao completo naufrágio. Nosso desafio é vencer o preconceito e não ter medo da verdade.” (Trecho do “Alerta à Nação”, publicado nos principais órgãos da imprensa e assinado por Novas Ideias, Novos Rumos)

Rebeca avisa Aristides que Janaína aceitou conversar com ele, mas quer que ela, Rebeca, participe da reunião. Nem quis saber sobre o que é a conversa, certo?, Sampaio Correia pergunta e acrescenta com visível sarcasmo: não falei que vocês mulheres não resistem à própria curiosidade. Por pouco, Rebeca não manda Sampaio à merda, mas segurou, engoliu em seco, depois pensou: “caralho, tô virando política?”
Depois que Laerte “amarelou” e resolveu esquecer um pouco as divergências com Golias, a audiência do Desce a Lenha despencou. Os donos da rádio pediram à gerência que resolvesse o problema, porque alguns anunciantes já haviam demonstrado desinteresse pela renovação dos patrocínios. A gerência procurou Marzagão, para sondar, apenas sondar, o que Laerte Alvarez achava da ideia de retomar algumas denúncias que ele, Marzagão, devia ter no bolso do colete. Marzagão deu o recado. Laerte foi curto e grosso, aliás, bem grosso: Marza, você quer me foder?
Jarbas comenta com Alencar os resultados de uma pesquisa sobre o grau de confiança dos eleitores na política. Alencar diz que já sabia que a pesquisa ia apontar a enorme desconfiança, que só vem aumentando com novas notícias diárias de corrupção, mas o fato é que o fenômeno não é exclusivamente nosso, acontece em todos os países. Jarbas concorda e lembra do Brexit no Reino Unido: as pesquisas apontavam uma vitória da permanência da Grã-Bretanha na comunidade européia. Isso fez com que numerosos eleitores, principalmente em Londres, deixassem de votar no plebiscito, lá, como nos Estados Unidos, o voto não é obrigatório. Quando saiu o resultado, dando a vitória ao Brexit, isto é, à saída do bloco europeu, a decepção foi geral, os eleitores viram o que a abstenção e o desprezo à política podiam ocasionar. Eu lembro, disse Alencar, teve até gente querendo um novo plebiscito, o primeiro-ministro foi taxativo: agora é tarde, Inês é morta. Depois riu e acrescentou: saiu a Inês e entrou a Theresa. Aqui vai ser um trabalho de Hércules recuperar a confiança na política, disse Jarbas, imaginando o peso de cada palavra.
O clima de intolerância, de acusações recíprocas, parece que estava  diminuindo, mas bastava que um dos lados tomasse a iniciativa de abrir o diálogo para que o ódio aflorasse, às vezes na forma de desprezo e arrogância, outras vezes como ameaças, explícitas ou veladas. Acho que o ponto de partida de tudo isso é a incerteza de que qualquer um dos caminhos propostos venha a desembocar na solução de problemas tão sérios e antigos, é o que Ângelo pensa, embora só revele tamanha descrença para uns poucos em que pode confiar. Alencar segue o mesmo caminho: se você fizer uma análise fria de todas as tendências políticas, diz ele, pode espremer à vontade que só vai surgir um túnel longo, muito longo, a percorrer. Antes que apareça alguma luz lá no final do túnel, grande parte das pessoas vai ter que tomar à força o tal remédio amargo de que tanto falam os economistas; outros vão se recusar a abrir a boca. A democracia é quantitativa, sempre será, enquanto não houver algum tipo de consenso o País vai andar à deriva. Jarbas disse: você tem muita razão no que fala, mas todos nós conhecemos a sua fama de pessimista de carteirinha, Alencar. O clima pesou, mas não por haver divergências na Coligação. Como disse Janaína, sem convicção nem o cavalo salta. Quantos aqui acreditam que o País chegou a um beco sem saída?, Ângelo perguntou. É pra levantar a mão?, disse Carlos Ortega, concordo que estamos numa encruzilhada perigosa, pode ser um beco sem saída, apesar da aparente calmaria do momento. Júlia foi mais longe: bem lembrado, aparente calmaria, a gente sabe que a ultra-direita continua fiel à volta da ditadura, a velha esquerda quer a volta dos populistas encarcerados, tem também os “bicões”, que acham que vão chegar ao poder porque todos os outros vão quebrar no caminho. Janaína apoiou: certíssimo, Júlia, sem esquecer os que não foram pegos com a boca na botija, simplesmente porque não os chamaram pra dividir o butim. É o tristemente famoso “baixo-clero”. Alencar encerrou a reunião com uma proposta: pergunto a vocês se devemos usar o exemplo da tragédia venezuelana para alertar sobre o fim da democracia e a falência do País. São imagens fortes, realistas, a multidão nas ruas sem ter o que comer, a política em sua face mais cruel. Por incrível que pareça, alguns países vizinhos ainda insistem em seguir esse modelo. Ângelo revela que é  a favor de usar todos os recursos disponíveis para chamar a atenção sobre os perigos que todos corremos: podem nos chamar de catastrofistas e até de demagogos, mas a verdade é que o desastre não acontece de repente. Procurem os amigos de Chaves e Maduro e encontrarão os ex-presidentes do Brasil e seus companheiros de partido e da famigerada base aliada. São os mesmos  que querem voltar ao poder, graças ao silêncio dos inocentes, é claro.  

PÓS-PRODUÇÃO. AD e DD, a partir de abril de 2017, transformam-se nas duas eras da política no País. O que significam? Antes das Delações e Depois das Delações. A divulgação dos depoimentos, muitos em vídeos, feitos pelos executivos da maior empreiteira do Brasil caiu como uma bomba no cenário político e também paralisou os já estarrecidos eleitores. Quase todo mundo que se interessa pelo tema sabia que corrupção e Caixa Dois sempre fizeram parte da política. A formação de Caixa Dois, por exemplo, nas campanhas eleitorais, era algo corriqueiro, já explícito no processo do Mensalão. Muitos também sabiam que esse Caixa Dois só poderia existir se a empresa doadora tivesse alguma contrapartida que justificasse o “investimento”. O que ainda provocou enorme surpresa foi a dimensão do escândalo e o coro das respostas padronizadas, negando os deslizes e alegando a falta de provas. Todos os acusados dizem que agiram rigorosamente dentro da lei e que suas contas foram aprovadas pelo Tribunal Eleitoral. É como se a empreiteira tivesse tomado de assalto os cofres da maior empresa pública do País sem a participação dos políticos. Se todos são inocentes, qual o destino dos milhões, bilhões das propinas e das obras superfaturadas? Ângelo se indignou: será que para provar corrupção vai ser necessário encontrar um recibo com as assinaturas de corruptor e corrompido? A sensação que dá hoje, disse Janaína, é que a desconfiança vai prevalecer por um bom tempo, muita água há de passar por baixo da ponte até que a gente consiga baixar a guarda.

Marzagão comentou com o garçom do Gato Preto: Laerte foi salvo pelo gongo. Depois do terremoto que as delações e os vídeos provocaram, a rádio esqueceu o Desce a Lenha, ou melhor, o programa foi substituído temporariamente por todos aqueles áudios com as delações intermináveis. O dono do bar ouviu a conversa e quis saber se o programa voltaria ou se Laerte tava na rua, sem  emprego. Marzagão disse que  talvez sim, talvez não, isso ninguém sabia ao certo, mas que ele e Laerte bem poderiam voltar aos velhos tempos do “Pega Ladrão”, o programa que ia atrás de outros bandidos, sem a grana e sem o charme dos políticos, mas também perigosos. Eu lembro, disse o garçom, acho que o povo gosta mais do Pega.
A vida não parou, não deram um stop motion na política, mas a maioria dos projetos ficou em banho-maria, entre eles a criação dos comitês feminino e da juventude na Coligação Novas Ideias, Novos Rumos. Por falar em novas ideias, a melhor parece ter sido a de Ortega: afastar da Coligação os que foram mencionados em qualquer uma das delações. Para não correr o risco do julgamento sumário e injusto, esse afastamento deveria ser temporário, mas era preciso esperar o final das investigações para admitir a volta do acusado. Teve gente que achou a proposta de Ortega exagerada, perigosa por aceitar como verdadeiras acusações que bem poderiam ser forjadas. A maioria, no entanto, achou que Ortega estava certo e somente anunciar a decisão já serviria para afastar aqueles que tivessem alguma culpa no cartório. Nessa hora, a carapuça pesa uma tonelada, disse Alencar.
Valentino achou que a política ia demorar demais pra pegar no tranco e resolveu pedir demissão e sair em campo atrás de algo novo, tipo um comercial para TV ou um documentário de bichos exóticos da Amazônia. Ortega considerou o pedido de demissão  precipitado e concedeu a Valentino um mês de férias antecipadas: é a melhor coisa pra esfriar a cabeça, foi o que me valeu, disse  Carlos Ortega. Vânia, que estava a seu lado, concordou: se foi... Kléber ficou por ali mesmo. A America Pictures estava disposta a montar  um departamento dedicado à produção de vídeo-empresa e Kléber podia entrar no projeto. Pra começar ia escrever um plano de trabalho e pedir a Mara que participasse da equipe, que também poderia contar com Olavo, diretor de fotografia, Henrique como seu assistente e mais um ou outro figurante. Eram todos pragmáticos e Kléber resumiu: produtora é tudo igual, se der dinheiro, toca o barco.
A reunião de Sampaio Correia e Janaína, com a participação de Rebeca, nunca se realizou. Primeiro porque Golias instituiu um toque de recolher até que “as melancias se ajeitassem no sacolejar da carroça”; segundo porque o próprio Aristides não sabia até que ponto era interessante manter a fachada de Sampaio Correia e correr o risco de ser identificado como seguidor de Golias. Na dúvida, melhor não pagar pra ver. 
Coincidência ou não, José de Alencar foi outro que desapareceu da produtora. Deixou um recado com Vânia, avisando que precisava de um tempo para resolver uns assuntos pessoais. Vânia ainda perguntou se Alencar sabia quando mais ou menos estaria de volta, mas o candidato foi evasivo: depende, por enquanto não dá pra dizer, qualquer coisa eu mando uma mensagem. Com exceção de Ângelo, todo mundo passou batido, sem se dar conta de que a viagem de Alencar podia ter algo a ver com as delações. Em conversa com Janaína, Ângelo chegou a dizer que a hora não era das melhores para resolver problemas pessoais, mas ele que não ia dar corda a suspeitas sem fundamento. Jarbas achou melhor não convocar nenhuma reunião e suspender por uns tempos a captação de depoimentos para a campanha da verdade. O problema era manter a produtora ocupada em algum projeto, que ele precisava descobrir ou inventar.
Sueli pergunta a Ramiro por que razão não surgiu um movimento sequer de protesto contra toda essa corrupção exposta com as delações, não houve uma passeata, uma concentração, nada. Ramiro pensa um pouco e diz que a corrupção não foi individualizada, pegou todos os partidos, a grande maioria dos políticos, situação e oposição, enfim, atingiu todo o mundo político, embora em graus diferentes. Sueli pergunta: diferentes como?, uns receberam 150 mil; outros, 150 milhões? Ramiro diz que sim, mas não só com valores diferentes, também no grau de comprometimento de cada um. Ramiro continua: as pessoas precisam individualizar os culpados, demonizar os corruptos, foi assim no impeachment, no “Fora, Dilma”, foi assim no “Fora, Temer” e no Rio, “Fora, Cabral”, mas e agora? Sueli concorda: é verdade, e agora, José? Fora, todo mundo?
Júlia revisava umas fitas de vídeo na ilha de edição da produtora. Varela entrou, ficou por ali bisbilhotando. Perguntou: sabe da última?, perdemos o candidato, parece que Alencar se mandou. Júlia respondeu que já sabia, mas podia ser apenas uma viagem, daqui a pouco, quando a poeira baixar, ele volta. E você, Júlia?, vai ficar por aqui? Por enquanto, vou, respondeu a assistente, nem tenho para onde ir. Varela disse: também não vou a canto algum, só se for com você. Ah, é?, disse Júlia enquanto pensava: resolveu se declarar. Varela ficou um pouco desapontado, achou que Júlia talvez não tivesse escutado o que ele dissera, resolveu insistir: um dia ainda faço uma declaração de amor, só não sei se vai ser premiada. Júlia esteve a ponto de responder: patético, mas limitou-se a sorrir e a perguntar novamente: ah,é?
Ângelo e Jarbas pediram a Ortega que montasse um documentário destinado a provar, através de imagens fortes, o que é a vida em países sem democracia. Ortega gostou. Primeiro porque rompia o marasmo; segundo porque na sua cabeça o documentário deveria ter apenas imagens e som ambiente de manifestações reprimidas, violência policial, violência de black-blocs, bombas, tiros de todos os lados, tentativas de invasão do parlamento, etc. Não era difícil encontrar nos arquivos da America Pictures cenas dessa natureza. Onde o documentário seria exibido? Para Janaína, poderiam sair em campo com um telão itinerante, além de utilizar o horário gratuito do programa político e das inserções na TV. Havia a necessidade de um comando, algo como: a democracia precisa de todos. Proteja a liberdade, antes que seja tarde. Jarbas aprovou e percebeu que o documentário poderia aglutinar a equipe, inclusive com a participação dos figurantes. Só não podemos ficar parados, disse Ângelo, esse é o maior  perigo.

Alencar voltou, disse que percorreu o País por conta própria, incógnito, para sentir o que se passava na cabeça do homem comum, aquele que não quer saber de política, disse ele a Jarbas: vivemos numa sociedade que continua alienada, como se isso tivesse o poder de blindar, não só a enxurrada de denúncias, como também os verdadeiros problemas que devemos enfrentar, essa é a verdade, a triste verdade. Jarbas balançou a cabeça, concordou com Alencar: como político, eu sei que você não pode tornar pública essa conclusão, mas será que não está na hora de se desmascarar essa atitude do eleitor brasileiro, sem medo de acabar falando sozinho? Penso muito nisso, respondeu Alencar, é um absurdo, algo inacreditável, que a maioria esmagadora das pessoas continue acreditando que tudo que aconteceu não teve a  participação dos eleitores, a tal ponto que muitos declaram que vão continuar votando no líder da roubalheira, no chefe dos chefes de todas as quadrilhas. Janaína entrou na conversa: gostei do que vocês estão falando, tem uma pergunta que faz tempo vem martelando a minha cabeça, por que o eleitor tem sempre que ser elogiado, bajulado, endeusado, sempre isento de qualquer culpa pelo que acontece de ruim no País, por quê?, são coitadinhos, enganados, inocentes… será que dá para acreditar e continuar na mesma linha? Quem se lembra do Mensalão, quando o capo di tutti capi saiu ileso porque não sabia de nada? Na época do Mensalão já existia o Petrolão, muito maior e mais destruidor, mas o chefe quer sair de novo imaculado, porque não sabia de nada. A vontade que dá… Ângelo parou o pensamento no meio, não era hora de deixar o pessimismo tomar conta.

Stephanie Lammar não era mulher de baixar a cabeça, jamais pensou em deixar barato o pontapé que levou de Rebeca. Desde aquele dia, urdiu mil-e-uma maquinações para se vingar, não só de Rebeca, como também de Iago e Roger Matiolli, embora o ator estivesse há muito tempo ausente da produtora. Até sequestro e maldades físicas passaram pela cabeça da atriz, mas nesse ponto sua inteligência falava mais alto do que a sede de vingança, Fanie sabia que o uso da violência poderia fazer o feitiço virar contra o feiticeiro. Pensou em procurar Golias, e nesse caso não estava descartada a troca de favores: Stephanie forneceria informações sobre a produtora e seus profissionais enquanto Golias ajudaria na montagem de uma intriga que “desmascarasse” aquela… Nem todos na America Pictures apoiaram a reação de Rebeca, alguns ficaram com pena de Stephanie, mas a grande maioria considerou que a menina reagiu a uma agressão da atriz, foi, portanto, legítima defesa. Iago não disse nada a ninguém, mas passou a receber ameaças cada vez mais frequentes: ligavam para a produtora, alertando sobre o passado de crimes que Iago supostamete havia cometido; enviavam e-mails e cartas para Janaína e Jarbas, até fotos de Iago beijando Rebeca nos corredores da America Pictures foram usadas na vingança de Stephanie. Na verdade, nenhuma dessas denúncias chegou a incomodar a direção da produtora ou os figurantes, que continuavam firmes ao lado de Rebeca, mas tanto ela quanto Iago sabiam que o objetivo era desgastar a imagem, minar a confiança que os dois desfrutavam, Rebeca chegou a dizer: de repente, aparece algo duvidoso de verdade, uma mentira com cara de verdade, ninguém tá livre disso, aí quero ver se essas infâmias não vão pesar.

Parece que os problemas nunca têm fim.

Tá pensando na violência? Pra mim, tá incontrolável.

Isso mesmo, pior é que não há um entendimento, colocam a culpa
no cenário político, na indecisão.

Como sempre, querem derrubar o governante e acham que com isso todos os problemas estão resolvidos.

E não é só a oposição que divulga essa desonestidade, parte da imprensa age da mesma forma, parece que esperam uma solução mágica, talvez alguma coisa que caia do céu pra salvar o País.

Você viu como tinha criança e adolescente nos saques dos caminhões? Colocam menores recrutados pra parar o trânsito, pra incendiar os ônibus, depois chamam a comunidade.

Dezenas, centenas… De todas as idades.

Pois é, aí é que a gente tem que pensar: se os bandidos têm tantos substitutos, gente que de uma hora pra outra pode ocupar o lugar dos chefes, não é matando nem prendendo que vamos acabar com o crime, certo?

Certíssimo, só que todo mundo, ou quase todo mundo, só pensa em prender, em matar, em mandar a polícia descer a borracha. É um ataque de estupidez coletivo.

Enquanto isso, a discussão política fica nos limites do financiamento de campanhas, fim de coalizões, cláusula de barreira pra limitar o número de partidos, tá certo que tem partido demais mesmo…

Trinta e cinco, né?

Por aí, mas o que importa é que não é isso que vai resolver ou, pelo menos, começar a desembaraçar o nó que deram na política.

E pra completar, Alencar, a Justiça, na pessoa jurídica do STJ e do Supremo, resolveu soltar bandido até sem tornozeleira, pode?

Com isso, já deu pra sacar que é só atrasar um pouco os julgamentos em segunda instância que não vai sobrar um corrupto na cadeia, meu caro Ângelo.

Depois das últimas pesquisas, desculpe o pessimismo, mas corremos o risco de ver o país sair de uma democracia saqueada pra cair nas mãos do chefe da quadrilha ou de uma ditadura fardada. Tô perdendo o sono por causa desse país de merda…

Ô, deixa rolar, Ângelo. Nosso projeto não decola mesmo. Vamos ficar de camarote, vendo o bicho que vai dar.

O Brasil de hoje é uma rosca espanada, com parafuso quebrado e a fenda esgarçada. Mas algum dia toma jeito.

Será? Ontem mesmo conversei com uns amigos sobre o processo no TSE, esse do julgamento da chapa Dilma-Temer. Acredita que mais da metade não sabia que Temer foi eleito na mesma chapa de Dilma? Pior ainda, um deles, que é jornalista esportivo, não acreditou, disse que era mentira pra iludir o povo, inacreditável.

Uma história de terror: a antiga oposição, que agora é governo, chafurda na lama da mesma corrupção que por décadas e décadas vem sangrando o país. A atual oposição, que antes era governo, tenta posar de inocente e joga a culpa pela crise nas costas dos adversários. Escândalo atrás de escândalo, o mais grave de todos, aquele que expôs as vísceras da presidência com as denúncias de empresários poderosos, corrompendo políticos e partidos com bilhões roubados ao País. Como desmontar essa máquina monstruosa sem cair na tentação de trilhar os atalhos do ódio, que levam sempre à exceção revanchista? Uma constituinte exclusiva pode ser um caminho, mas é longo e ninguém sabe até que ponto  a  democracia é capaz de resistir aos apelos populistas. Mágica não vai dar certo. O futuro é sempre realista e virá de qualquer jeito, para o bem ou para o mal.
Talvez um dia eu me arrependa, mas por enquanto preciso confessar que estou cada vez mais descrente do verdadeiro poder da democracia, aquela do voto na urna de quatro em quatro anos.
Não sou a favor de nenhuma solução estúpida, como intervenção militar, mudanças apressadas na Constituição ou reformas políticas de gabinete. A melhor saída será sempre deixar que os eleitores escolham seu próprio destino, por mais semelhante ao trágico passado que ele venha a ser.  A minha descrença deve-se à convicção de que  democracia sem consciência vale tanto quanto a palavra de alguns políticos que todos conhecemos. 
O populismo, ao longo de muitas décadas, plantou raízes sólidas em boa parte do povo brasileiro. Não foi só no Brasil que isso aconteceu, é claro. A tentação de resolver problemas complexos com soluções rápidas e de fácil aceitação ressurge sempre que a economia de um país começa a derrapar. Por aqui, as propostas "salvadoras" se repetem: tirar dos ricos para dar aos pobres, acabar com a fome, garantir bolsas e programas para combater a desigualdade com recursos públicos e, com o dinheiro desviado, comprar apoio político daqueles que estão sempre à venda.
Há também a ressaltar a preguiça do eleitor, a mesquinharia do jornalismo que virou mídia, as reivindicações dos sindicatos, o poder das associações de juízes, promotores, funcionários públicos, todos voltados a defender seus próprios interesses. O populismo responde a tudo isso resumindo a realidade a uma luta incansável de santos contra demônios, eternamente o bem contra o mal. Não é tão simples assim, mas quem acredita que a maioria gosta de pensar antes de escolher seus candidatos?


(Continua)